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PROFETISMO
  Data: 16/11/2011  Hora: 13:09:43 

  O dicionário diz: “Profeta é uma pessoa capaz de prever o futuro”. De fato, na boca do povo, uma profecia tem a ver com o futuro, como, por exemplo, as profecias de Nostradamus. “Profeta” ou “profecia” são palavras que, para nós, evocam a “previsão do futuro”.

Na realidade, porém, “profetizar” que dizer “falar em nome de”. Profetas são homens que falam em nome de Deus, e sabem que estão falando em nome de d’Ele

Eis alguns questionamentos:

Como o profeta sabe que Deus manda falar isso ou aquilo?
Como nasce a vocação de um profeta?
Havia profetisas?
Como distinguir um profeta verdadeiro de um falso profeta, se ambos dizem estar falando em nome de Deus?
Qual a missão de um profeta?
O que ele ensina sobre Deus?
Existem profetas e profetisas hoje?
São apenas algumas perguntas que nascem quando se lêem os livros dos profetas…

O Livro de Khalil Gibran, O Profeta, muito vendido, não fala de futuro, só dá conselhos sobre as coisas do espírito e sobre como viver. Ao ver uma pessoa de idade, com barba branca e ar solene, o povo também diz: “parece um profeta!”. Nas Comunidades Eclesiais de Base, e nos grupos mais conscientes, ouve-se dizer: “Dom Helder era um profeta!” O mesmo se diz de pessoas que levantam sua voz em defesa dos pobres. Outros dizem: “Frei Damião é o Profeta do nordeste!”. Resumindo: hoje, todos usam a palavra profeta, mas cada um a seu jeito.

Na realidade, parece que a tradução da palavra profeta, “nabi” (do hebraico), é ser um anunciador. Em Israel os profetas falavam em nome de Deus. Eram anunciadores, intérpretes, aqueles que falavam em nome do Senhor. Trouxeram mensagens d’Ele para o povo. O equívoco se deve ao fato de termos agregado ao termo “profeta” o poder de predizer, prenunciar o futuro, e de manifestar coisas ocultas.

Na verdade, só nas exceções esses termos se referem às coisas futuras ou ocultas. Contudo, não se exclui da função do profeta o anúncio do futuro, mas não lhe é essencial. É isso que se pode deduzir de Deut 18, 15-22, que põe lado a lado duas idéias: falar em nome e prenunciar o futuro. Cf também Is 41, 22; 42, 9; 48, 3-7… para não citar outros textos. Há aí um sentido primário de profeta ou adivinho, mas pode também significar poeta.

2 – Quem era profeta na época do Antigo Testado?
No Antigo Testamento há 16 livros atribuídos aos profetas. Deles, quatro são chamados “profetas maiores”: Isaías, Jeremias (junto com Lamentações e Baruque), Ezequiel e Daniel. Os outros doze são chamados “profetas menores”: Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias, A divisão em “maior” e “menor” é devida à quantidade de escritos a eles atribuídos. Há outros profetas na Bíblia dos quais não conservamos nenhum escrito. Por exemplo: Elias e Eliseu.

Muitos desses profetas são apenas nomes estranhos para nós. Já não é possível saber quem foram, como viveram e lutaram. No entanto, o estudo crítico dos escritores e da história extra bíblica permite, hoje, reconstruir para alguns deles o tecido complicado das situações humanas em que tiveram de atuar e realizar sua missão.

No Antigo Testamento não é claro o que vem a ser um profeta. Em alguns textos, o profeta parece ser uma pessoa meio doida, que dança, tira a roupa, cai em delírio (1 Sam 19, 24); interpreta sonhos (Deut 13, 2-4); consulta a Deus (1 Sam 28, 6-15); ganha a vida com a sua profecia (Am 7, 12). Em outros textos, porém, ele parece ser uma pessoa importante, como Samuel (1 Sam 3, 20). Alguém chamado para guiar o povo, como Moisés (Deut 18, 15-18). Moisés quer que todo o povo seja profeta (Num 11, 29). Joel garante que todos, um dia, vão profetizar (JI 3, 1). Mas Amós não aceita ser chamado profeta (Am 7, 14). Zacarias manda matar a quem se diz profeta (Zac 13, 3-6).

………….. 1 Sam 19, 24; Deut 13, 2-4; 1 Sam 28, 6-15; Am 7, 12; 1 Sam 3, 20; Deut 18, 15-18; JI 31, 1; Am 7, 14; Zac 13, 3-6.

Havia profetisas? Cf. Miriam (Ex 15, 20); Débora (Jui 4, 4); a esposa de Isaías (Is 8, 3); Hulda (2 Re 22, 14); Noadias (Ne 6, 14); as profetisas de Ezequiel (Ez 13, 17-19).

Havia os profetas Javé (1 Re 18, 4), entre os quais se destacam Elias, Amós, Oséias, Miquéias, Isaías, Jeremias e outros. Eles viviam em grupos (1 Sam 10, 10); ao redor de Samuel em Rama (1 Sam 19, 20); ou de Elias e Eliseu, em Betel e Jericó (2 Re 2, 3-5); eram casados (2 Re 4, 1); e eram chamados de irmãos ou filhos de profetas (2 Re 4, 1-38).

Havia também os profetas de Baal (1 Re 18, 13-22). Eram igualmente numerosos (Num 22, 2-35). O povo chegou a conhecer a ação profética em pessoas que não eram do povo de Deus. Por exemplo: Balaão (Num 22, 2-35). Até uma jumenta podia ser portadora de uma profecia! (Num 22, 28-30)

No Antigo Testamento havia profeta para tudo. Para apoiar o rei e para criticá-lo (Jer 28, 1-17). Hoje também é possível encontrar padres, freiras, leigos, para tudo! Esta ambigüidade da profecia, tanto ontem como hoje, obriga-nos com maior objetividade a buscarmos responder: o que vem a ser um profeta?

3 – O que vem a ser um Profeta?
3.1 – Um Pouco de História: O Começo do Profetismo e sua Evolução.
3.1.1 – Relações entre o Rei e o Profeta:

Na sua origem, o profetismo não surge tanto do lado do poder, da instituição organizada, da ciência, do racional, do planejamento, do governo, do sistema. Surge muito mais do lado da poesia, da inspiração, do transe, da música, do sonho, da visão, do popular, das artes, da intuição, do oráculo, da religião, da divindade, da oração, da mística. São muitas as palavras para indicar uma determinada maneira de se captar a realidade e de reagir diante dela.

É difícil penetrar a intimidade de alguém e levantar o véu do mistério da vida que se passa entre ele e Deus. A vocação do profeta situa-se nessa esfera do mistério impenetrável da vida. Refletindo, porém, sobre as indicações que eles mesmos nos deixaram nas suas profecias, é possível chegar a formar uma idéia de como nasce a vocação de um profeta. Vejamos, abaixo, alguns exemplos.

O profeta Amós era um homem simples, do povo, lavrador e pastor (Am 7, 14). Vivia em um tempo de progresso econômico promovido pelo rei Jeroboão (783-743 A.C.), mas feito à base de um egoísmo coletivo de grupos. Isto provocava uma divisão injusta de classes e oprimia grande parte do povo (Am 5, 7; 2, 6-7; 3, 10). Confira ainda: (Am 7, 7-9); 8, 1-3; 7, 4-6; 7, 10-17). Cf. Carlos Mesters, livro: “Deus Onde Estás?” (p. 69-70.)

Do profeta Oséias se diz: “A missão profética de Oséias começou quando o Senhor lhe disse: Vai e desposa uma mulher dada em adultério” (Os 1, 2). A interpretação mais provável é a seguinte:Oséias se casou e, embora feliz no casamento, a sua esposa o abandonou e foi para a prostituição (Os 2, 7). Oséias continuou a amá-la (Os 3, 16). O amor de Oséias, assim desinteressado, despertou a mulher para o seu valor e ela voltou a ser a esposa. Com isso, Oséias descobriu ser ele a força regeneradora do amor.

O povo abandonava Deus, considerado como “esposo do povo”, e se prostituía com outros deuses. Aí Oséias percebeu o alcance de sua experiência pessoal: Deus continua a amar o povo com amor fiel e desinteressado, capaz de regenerar o povo e capaz de fazê-lo voltar a ser “povo de Deus”, a “esposa fiel de Javé”. Aí é que ele toma consciência de sua missão junto ao povo.

O profeta é alguém que percebe o chamado de Deus através da sua situação pessoal, dentro do povo. Sente um compromisso com Deus e com as pessoas. A exigência de Deus leva-o a ter igual percepção daquilo que deveria ser a vida do povo. Aí sim fala com autoridade, porque fala a partir de Deus e a partir da consciência e da tradição secular do povo. A sua vocação nasce do confronto entre a situação real e a situação ideal.

Deus age com severos castigos para quem não está autorizado a falar em seu nome (Deut 18, 20). Em contrapartida, a realização da profecia é a prova de que Deus dá autenticidade e está com o profeta (Deutt 18, 21-22; Jer 28, 9; Ez 33, 33). Assim se distingue o falso do verdadeiro profeta.

Em quase todos os povos da antiguidade e também no povo da Bíblia, havia esses grupos de artistas, cantores, ou poetas ou grupos populares, misturados com religião, chamados profetas ou videntes (I Sam 10, 10; 19, 20-24). Eram muito procurados para resolver os problemas da vida do povo através de uma consulta à divindade: problema de saúde (I Re 17, 17-18); insalubridade de água (II Re 2, 19-22); perda de um jumento (I Sam 9, 6-10); defesa do território (Num 22, 2-6) e outros. Havia uma certa analogia entre eles e os nossos beatos, benzedeiras, mães-de-santo e pais-de-santo…

Os reis e os governantes procuravam apoio destes grupos, pois, em geral, pretendiam exercer o poder em nome de Deus. O apoio de um profeta significava o apoio da divindade e garantia melhor obediência dos súditos. Era uma confirmação divina do poder humano. Assim, no começo da história do povo da Bíblia, todas as mudanças tiveram o apoio de um profeta: o profeta Samuel foi procurado pelos chefes que queriam a mudança do sistema tribal para a monarquia (I Sam 8, 4-5); os reis Saul, Davi e Salomão foram apoiados por um profeta (Cf I Sam 10, 1; 10, 24; 16, 12-13; II Sm 7, 1-17; 1 Re 1, 34). Jeroboão, que provocou a separação (Cisma) entre Judá e Israel, teve apoio de um profeta (I Re 11, 19-31). Em muitas ocasiões, quando os reis estiverm diante de uma decisão importante, recorreram aos profetas (I Re 22,5). Os políticos fazem isso até hoje.

3.1.2 – O Germe da Diferença com os Outros Povos: A Fé em Javé.

No início, tanto em Israel e Judá como nos outros povos, os profetas surgiam como pessoas ou grupos de pessoas ligadas às divindades do povo e aos seus líderes. Mas o Deus de Israel não era uma divindade qualquer. Ele era (e continua sendo) Javé, o Deus vivo e verdadeiro, o Deus Libertador. E o rei de Israel não podia ser um rei qualquer, como os outros reis, mas devia ser “um lugar tenente” deste Javé. Aqui está o germe da diferença entre os profetas do Povo de Deus e os dos outros povos.

Nos outros povos os profetas nunca chegaram as ser um grupo independente e crítico diante do poder. A divindade por eles representada era uma divindade cuja função ou natureza era precisamente legitimar o poder. Por isso, era impensável um profeta criticar o rei, pois, o rei era, por assim dizer, a encarnação da própria divindade.

Na Bíblia, porém, Javé, o Deus do Povo, não existia para legitimar o poder do rei, mas o poder existia para legitimar a Aliança ao “Projeto de Deus” (cf. Deut 17, 14-20). O sistema tinha por base a Teocracia (governo de Deus).

No seu início, a monarquia teve o apoio crítico dos profetas. Alguns deles chegaram a ser conselheiros do rei (I Sam 22, 5; II Sam 24, 11-19). Mas quando a monarquia se desviou para ser um sistema contrário à Aliança e ao Projeto de Deus (I Re 19, 10-14), aí, aos poucos, a profecia tomou um rumo independente e transformou-se em força crítica, livre diante do poder, expressão da liberdade do próprio Deus. Assim começou a permanente tensão entre profecia e monarquia.

3.1.3 – A Separação dos Caminhos

Essa separação dos caminhos aconteceu, pela primeira vez, bem claramente, na época de Elias. Com Elias, o profetismo tomou o rumo de defesa da Aliança e da vida do povo contra a prepotência do poder dos reis. No entanto, apesar da crítica dos profetas, o rei, mesmo infiel à Aliança, continuava com sua pretensão de ser “lugar tenente” e “filho de Deus” (cf. II Sam 7, 14; Am 7, 13). Ele considerava o profeta que o criticava como “inimigo” e “flagelo de Israel” (I Re 21, 20; 18, 17).

Era uma luta perigosa, pois o rei e seus funcionários não tinham medo de matar (I Re 18, 13; 19, 10; Jer 18, 18; 26, 11). Mesmo assim, apesar de toda sua violência, e de todo seu esforço para marginalizar os profetas como heréticos e inimigos de Deus e do povo, eles nunca conseguiram calar a voz dos profetas e das profecias.

Mas nem todos os profetas tiveram a clareza e a coragem de Elias. Esta luta entre reis e profetas provocou a divisão interna dentro do próprio movimento profético. De um lado, havia profetas e profetisas ligados ao poder opressor da corte real, que usavam sua autoridade profética para apoiar o rei e que, depois, foram chamados “falsos profetas”. De outro lado, havia profetas e profetisas que se opunham às pretensões dos reis e dos “falsos profetas” (Jer 28, 1-17; 14, 13-16; 23, 9-40). O discernimento nem sempre era fácil ( Deut 18, 15-22; Jer 14, 13-14; 28, 9; Ez 33, 30-33). Os próprios profetas de Javé tinham dúvidas (cf. Jer 17, 15; 12, 1).

4 – O quadro de referências dos Profetas
Para poder anunciar e denunciar, o profeta tinha um duplo quadro de referências:

Uma experiência profunda de Deus. Não de qualquer Deus, mas de Javé, o Deus que está no meio do povo, o Deus libertador, o Deus vivo e verdadeiro.
Uma experiência profunda da realidade do povo. Não de qualquer povo, nem do povo em geral, mas do povo enquanto chamado a ser povo de Deus.
4.1 – A Experiência de Javé, Deus do povo
Experimentar a presença de Javé. O profeta experimenta a experiência de Javé no meio do povo e a ela se rende (Is 52, 6; 58, 9; 65, 1). É o que até hoje professamos na liturgia: “O Senhor esteja convosco! Ele está no meio de nós!”. A experiência de Deus traz consigo a sua própria evidência. Não existe uma instância superior a qual Deus teria de obedecer para poder revelar sua face ao povo e ser reconhecido e aceito por eles. Esta experiência de Deus é a fonte da liberdade dos profetas diante dos poderosos. Ela interrompe a história sob o grito: “Oráculo de Javé!”. É o absoluto de Deus encontrando no tempo, suspendendo tudo! É aqui que o profetismo encontra a fonte de sua riqueza e também da sua decadência. Pois muita gente se aproveitava e sem ter nenhum oráculo de Javé, gritava “ Oráculo de Javé!” (cf. Jer 28, 4; 29, 8).

4.1.1 – Despertar a Memória Crítica e Efetiva do Povo

A experiência de Deus é sempre uma experiência de Deus nos pais. Por isso mesmo, ela traz consigo tudo o que Deus fez no passado e dá olhos novos para entender e atualizar o seu sentido. O profeta torna-se, assim, a memória do povo. De um lado, lembra coisas incômodas que muitos gostariam de esquecer, por exemplo, o Êxodo (cf. Ex 22, 20). De outro lado, lembra também a presença carinhosa com que Deus acompanhava e sustentava seu povo (cf. Deut 32, 10-11). A memória do passado como expressão de fidelidade à Aliança é um dos critérios mais importantes para o povo reconhecer se um profeta é verdadeiro ou falso.

4.1.2 – Exigir Fidelidade à Aliança

A experiência de Deus é sempre uma experiência do Deus que tirou o povo do Egito: Deus Libertador, Deus da Aliança, chamado Javé. O profeta torna-se assim, o defensor da Aliança, a pessoa que vem cobrar do povo o compromisso assumido de ser o povo de Deus: “Vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Ex 19, 6). O profeta encarna as exigências da Aliança ou da Santidade de Deus, exige fidelidade e pede a observância pratica da Lei de Deus.

5 – Experiência da realidade do povo de Deus
5.1 – Experiência do Pecado
A experiência da santidade de Deus e das suas exigências é, ao mesmo tempo, a experiência do pecado, da quebra da Aliança, das falhas que existem no povo: experiência daquilo que o povo deveria ser e não é (cf. Is 6, 5). A luz faz aparecer a sombra.

5.2 – A Quebra da Aliança
Onde aparece caco de vidro no chão, a gente pára, olha e diz: “alguma janela foi quebrada!”. Onde aparece o pobre no meio do povo, o profeta pára, capta a mensagem e diz: “A Aliança foi quebrada!”. Os “cacos” que, no Antigo Testamento, revelam a quebra da Aliança, são os pobres, os “empobrecidos” (cf Deut 15, 1-11; Lev 25, 36ss). Também o descaso para com os órfãos, as viúvas, os estrangeiros e os levitas era sinal de quebra da Aliança. A presença desses grupos de marginalizados dentro da caminhada revelava que algo estava errado (cf. Deut 14, 29; 16, 11-14; 24, 14-22). O povo estava ferido com uma chaga viva (cf. Is 1, 6; Jer 30, 12-15; 14, 17-18; 15, 18).

5.3 – O Apelo dos Pobres
Alguns se acostumavam com os “cacos” e os ignoravam. O profeta fazia o contrário. Nos textos bíblicos percebemos como eles confrontavam o povo com pobres e como exigiam mudanças em nome de Javé e em nome da origem do próprio povo que dizia: “Entre vocês não pode haver pobre” (Deut 15, 4).

A existência do empobrecido no meio no meio do povo, “mesmo que um só” (Deut 15,7), era um apelo de Deus a viver melhor a Aliança.

É a partir desta dupla experiência do Deus do povo e do povo de Deus, que nasce no profeta a consciência de sua missão e que ele começa a gritar e a denunciar. A denúncia do mal era, ao mesmo tempo, anúncio do amor de Deus e apelo à conversão. O povo se identificava com o profeta e reconhecia nele o ideal que ele mesmo carregava dentro de si. No povo existia a peneira da fé capaz de, aos poucos, ir discernindo os “verdadeiros” e os “falsos” profetas. Orientados por esse sentido da fé (Sensus Fidee), chegaram a elaborar uma série de critérios para esses discernimentos dos espíritos.

Jesus reconhecia a capacidade do povo de discernir seus verdadeiros líderes, pois dizia: “Eu conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem!” (Jo 10, 14).

6 – Os caminhos da mudança: As três linhas dos profetas
O apelo à conversão e à mudança, feito pelos profetas, passa por três caminhos, ligados entre si: os caminhos da Justiça da Solidariedade e da Mística.

6.1 – O Caminho da Justiça: Mudar as Estruturas Injustas, Transformar a Sociedade
A justiça acontece quando tudo está no lugar onde Deus quer, quando tudo é como deve ser. Os profetas lutam para que a vida do povo seja organizada novamente conforme o projeto da Aliança, expresso na lei. Não são pregadores teóricos, mas denunciam bem claramente as injustiças e apontam as causas. Eles não têm medo de dizer o que está errado na organização do país, tanto por parte das pessoas responsáveis, como por parte das instituições e do próprio povo.

Por sua denúncia procuravam criar novas leis que favorecessem a vida do povo e o levassem a uma melhor observância da Aliança. Uma delas é a Lei do Ano Jubilar ou Ano Sabático (Lev 25; Deut 15), que visava criar uma estrutura agrária mais justa no país.

É nesse nível da luta pela justiça que se tratava o confronto entre rei e profeta. O profeta cobrava do rei a sua parte na observância da Aliança. Exigia que dentro do território confinado ao rei se realizasse o projeto de Deus.

6.2 – O Caminho da Solidariedade: Mudar o Relacionamento, Renovar a Comunidade
Depois da destruição da Samaria (722 a.C) e, diante da impossibilidade prática de mudar a estrutura, tanto da monarquia, como dos grandes impérios, a fidelidade à Aliança começa a insistir mais no caminho da solidariedade. Isto aparece mais claramente em Deut 15, 1-18.

Na comunidade do povo de Deus não pode haver pobres. “Em teu meio não haverá nenhum pobre!” (Deut 15, 4). Todos devem poder viver na partilha perfeita dos bens, entregues por Deus a todos. Mas a comunidade sendo pequena, não controla a vida de todo mundo, nem consegue as causas naturais, econômicas, sociais e políticas que produzem a pobreza. Por isso, “nunca deixará de haver pobres na terra; e é por isso que eu te ordeno: abre mão em favor do teu irmão, do teu pobre e do teu indigente em tua terra”! (Deut 15, 11). Assim, à medida que os teus pobres entrarem no âmbito da comunidade, esta, sem diminuir em nada a luta pela justiça, deverá acolhe-los, pois dentro da comunidade, “em teu meio não haverá nenhum pobre!” (Deut 15, 4).

A comunidade do povo de Deus deve ser uma amostra daquilo que Deus quer para todos. Ela deve ser a aliança de Deus com os homens contra tudo aquilo que estraga a vida e marginaliza as pessoas. Ela deve saber acolher os pobres, vítimas, tanto da injustiça, como das catástrofes, guerras e outras causas. É neste nível da solidariedade que se lutava, sobretudo, depois do cativeiro, quando o povo, disperso pelo mundo e, já sem independência política e econômica, estava reduzido a uma pequena comunidade, sem poder, perdida no meio de um império multirracial.

6.3 – O Caminho da Mística: Mudar o Modo de Pensar, Recriar a Consciência
A injustiça básica é a consciência roubada do pobre. A eles foi imposta uma consciência de inferioridade. O sistema injusto dos reis fez do pobre um ser inferior, um preguiçoso, um pecador que não merecia vida melhor do que aquela que tinha de fato.

Roubaram a consciência do pobre! Esta era a injustiça básica! Assim, o rico podia continuar tranqüilo na posse da sua riqueza, sem ser incomodado pelo grito do pobre, pois o pobre era, ele mesmo, o único culpado da sua própria pobreza!

Enquanto perdurasse no pobre essa falsa consciência, qualquer trabalho de mudança, tanto na linha da justiça como na da solidariedade, não passaria de ilusão. Seria enxerto em galho morto, reboco em parede rachada, operação plástica em cadáver!

Como combater essa injustiça básica? O rico pode devolver o dinheiro que roubou, mas jamais poderá devolver a consciência roubada, pois roubando-a, ele mesmo se desumanizou e perdeu a consciência que tinha. Então como fazer? Quem é capaz de devolver ao pobre a consciência roubada? (cf. Rom 7, 24-25).

É aqui que aparece a importância do profeta. Ele não só denuncia as injustiças e os erros, ou apenas estimula para a solidariedade, mas também e, sobretudo, anuncia a certeza central da fé: “Deus está no nosso meio!”. Ele ouve nosso grito! Deste modo, o profeta contribui para que apareça no povo uma nova consciência, que já não depende do rico, mas que nasce diretamente da fonte da vida: do amor de Deus!

Despertado pela mensagem do profeta, o pobre já não grita para implorar o favor do rico. Ele grita é para Deus, e Deus escuta o seu clamor. Ele responde: “Eu sou Javé! Estou com você! Vá libertar o meu povo!” (cf. Ex 6, 2-8; 3, 7-15). É desta certeza de que Deus está com ele e o ama que nasce no pobre uma nova consciência de gente e de filho de Deus, consciência de sua própria dignidade e missão. É como uma “nova criação”, que quebra o círculo vicioso da ideologia dominante! (cf Gl 6, 15; II Cron 5, 17).

6.4 – Conclusão: Três Caminhos, um rumo só
Não se trata de três caminhos distintos, como se cada um pudesse escolher o caminho que mais lhe agrada, deixando de lado os outros dois caminhos. Não! Os três caminhos devem estar unidos entre si. Um caminho não é possível sem os outros dois.

Justiça, sem solidariedade mística, torna-se mera ação política sem humanidade e não atinge o mais profundo do ser humano. Politiza e endurece a ação. Vence a razão, mas não convence o coração.

Solidariedade, sem justiça mística, torna-se mera filantropia de clubes humanitários a serviço dos sistemas que geram o empobrecimento. Engana a consciência, neutraliza o grito do pobre e impede o surgimento da consciência crítica dos oprimidos.

Mística, sem justiça solidariedade, torna-se piedade alienada, sem fundamento na realidade e sem fundamento na tradição da Bíblia. Ofende a Deus, pois o transformou em um ídolo, e engana os pobres, pois os faz submissos à justiça.

7 – Os Profetas dentro das história do povo de Deus
PRIMEIRO PERÍODO DE SAMUEL ATÉ ELIAS: DE 1000 A 800 a.C.
7.1 – Características

7.1.1 – Fatos Marcantes: Época do surgimento das monarquia; os primeiros grandes reis: Saul, Davi e Salomão; separação dos Reinos de Israel e Judá.

7.1.2 – Época difícil, marcada pela ameaça externa de invasão dos filisteus e pela desagregação interna do Sistema Tribal.

7.1.3 – Triunfo da monarquia, que se articula a partir do fortalecimento das cidades e da tributação do campo.

7.1.4 – Surgem grupos de beatos e cantores de origem popular (chamados profetas ou videntes), que verbalizam o descontentamento do povo.

7.1.5 – O poder exercido pelo rei necessita de legitimação a partir das origens do povo, e busca esse apoio nos profetas e no sacerdócio.

7.1.6 – Os grupos proféticos têm algo de ambíguo: de um lado, são porta-vozes da resistência popular, de outro, legitimam o rei.

7.1.7 – Essa ambigüidade leva, aos poucos, à “divisão das águas” no interior do próprio movimento profético.

7.1.8 – A clareza vem com o profeta Elias. Nele o profetismo de Israel se define e faz nascer o conflito entre os reis e os profetas.

SEGUNDO PERÍODO DE ELIAS ATÉ O EXÍLIO: DE 800 A 600 a.C.
7.2 – características

7.2.1 – Época do despertar das grandes potências: Assíria e Babilônia. Conseqüências: aumento da dívida externa; conspiração freqüente dos pequenos contra a ameaça dos grandes; tributação maior dos agricultores.

7.2.2 – Fatos Marcantes: destruição da Samaria e sua deportação (722 a.C.); decadência progressiva de Judá, início da reforma deuteronomista.

7.2.3 – Os reis de Israel e Judá caem em órbita de outros povos e imitam seus costumes. Fazem de Javé um ídolo qualquer. Mantêm-se no trono, não pela fidelidade à Aliança, mas graças ao apoio que recebem da Assíria ou do Egito.

7.2.4 – Desintegra-se o Sistema tribal: já não se tem memória da Aliança; crescem as diferenças sociais dentro do clã; – crise de fé da parte do povo.

7.2.5 – Surgem os profetas Amós, Oséias, Isaías, Miquéias, Sofonias, Naum, Habacuc e Jeremias. Suas ações se caracterizam do seguinte modo: “Em nome da Aliança”.

Defendem o povo contra o avanço explorador da cidade;
Gritando “Oráculo do Senhor!”, anunciam a intervenção direta de Javé;
Denunciando os erros do rei e do povo, convocam para a conversão;
Brigando com os responsáveis, procuram reformar o sistema dos reis;
Formam grupos de discípulos que guardam e transmitem o ensinamento do mestre (início dos livros Proféticos);
Todos eles anunciam a proximidade do desastre (exílio), que virá como conseqüência da política nefasta dos reis.
TERCEIRO PERÍODO OS PROFETAS DURANTE O EXÍLIO: DE 609 A 538 a.C
7.3 – Características

7.3.1 – A aliança político-militar entre Egito e Assíria não conseguiu evitar o surgimento e a consolidação do novo império da Babilônia.

7.3.2 – Fatos Marcantes: morte do rei Josias; desintegração progressiva de Judá; destruição de Jerusalém e deportação para o exílio (586 a.C.).

7.3.3 – Exílio: destrói o falso apoio da fé; provoca perda de identidade e crise profunda de fé; “Deus está ou não em nosso meio?”.

7.3.4 – O povo exilado recebe ajuda dos discípulos do profeta Isaías, cuja atuação profética se caracteriza da seguinte maneira:

7.3.4.1 – Partilham com o povo o sofrimento e a crise e reconhecem a presença de Deus nos próprios fatos dolorosos do exílio.

7.3.4.2 – Descobrem uma pedagogia que ajuda o povo a ler os fatos à luz da fé e a criticar o sistema opressor dos ídolos.

7.3.4.3 – Relêem o passado à luz da nova experiência de Deus e redescobrem a missão do povo exilado: ser servo, ser luz das nações.

7.3.4.4 – Outros profetas são Jeremias e Ezequiel. É o período da revisão profética da história fracassada: quem é o culpado do fracasso?

7.3.4.5 – Diminuem os recursos aos Oráculos: começa a preocupação em transmitir e atualizar as palavras dos profetas do passado. Inicia-se, assim, o processo que desemboca nos escritos proféticos.

QUARTO PERÍODO A PROFECIA DEPOIS DO EXÍLIO: DE 538 a.C A 175 a.C
7.4 Características

7.4.1 – O tributarismo vai cedendo lugar ao escravagismo, que é uma forma mais dura e mais organizada de exploração dos povos oprimidos.

7.4.2 – O povo hebreu é uma pequena etnia sem rei, vive sob o domínio persa (538 – 523 a.C.), e helensita (523 – 141 a.C.).

7.4.3 – Várias tentativas de reconstrução:

Restauração da monarquia (com Zorobabel);
Projeto “Luz das Nações” (Isaías II e III);
Restauração do Templo, do culto, da cidade (Josué e Neemias);
Reorganização em torno da lei e da pureza da raça (Esdras).
O projeto de Josué, Neemias e Esdras prevalece, e leva o povo a se organizar em torno do templo, da lei e da raça. Os profetas desse período foram: Ageu, Zacarias, Malaquias, Joel, Abdias, Jonas, Isaias III (cap. 56-66). A profecia se manifestava assim:

Ageu e Zacarias aparecem ligados ao projeto de restauração;
Isaias III aparece como promotor do projeto luz das nações;
Desapareceu a profecia na sua forma clássica de “Oráculo de Javé”, e apareceram a Escritura, a Tradição e a Sinagoga;
A profecia manifesta-se ainda na voz da oposição, nos livros de Jó, Jonas, Rute, Eclesiastes (Cohelet), e Cântico dos Cânticos.
QUINTO PERÍODO A PROFECIA NO LIMIAR DO NOVO TESTAMENTO: DE 175 ATÉ JESUS
7.5.0 – Características

7.5.1 – A Palestina era dominada pela Síria (Selêucidas – 200-142 a.C.), pelos Hasmoreus (142 a 63 a.C.), e a partir de 63 a.C. pelo Império Romano.

7.5.2 – Fatos Marcantes: a classe dirigente, com o apoio do rei da Síria, introduz o helenismo (175 a.C) e, assim, tenta quebrar o isolamento que o povo vivia desde Neemias e Esdras. Isto produz a revolta dos Macabeus (167 a 164 a.C.).

7.5.3 – A dinastia dos Hasmoreus (142-63 a.C.), atrai a revolta dos Macabeus e chama os romanos. A ocupação romana se caracteriza por um empobrecimento que gera miséria e revolta popular generalizada.

7.5.4 – Surge a apocalíptica como nova forma de profecia. Ela encontra um chão fértil nos movimentos messiânicos do fim do século 1° a.C.

7.5.5 – Defasagem total entre as lideranças oficiais (Fariseus, Saduceus, Escribas, Sacerdotes) e os anseios do povo.

7.5.6 – Surgem profetas populares, cujo primeiro é João batista.

7.5.7 – Jesus aparece como profeta popular que suscita a esperança dos pobres. Ele questiona o sistema religioso montado e mantido pelos fariseus e doutores, pelos sacerdotes e pelo templo.

SEXTO PERÍODO CONCLUSÃO ABERTA
“OXALÁ TODO O POVO FOSSE PROFETA” (Num 11, 29)

A leitura profética da história tem como finalidade ajudar-nos a ler nossa história como o olhar de um profeta.

No Antigo Testamento os profetas ajudaram o povo a reconhecer a presença de Deus também fora do povo de Deus. Amós reconhece Deus dirigindo os destinos dos filisteus e dos arameus (Am 9, 7). O livro de Jonas supõe que um profeta pode ser enviado para Nínive (Jon 1, 2). O livro de Jó reconhece que o apelo de Deus pode vir também de um árabe que não era do povo de Deus (Jó 1, 1). Isaías reconhece em Ciro, o rei da Pérsia, o ungido de Deus (Is 5, 1). Ezequiel enumera vários sábios de outros povos e reconhece neles a ação de Deus (Ez 28, 3; 14, 14). Através de Jeremias, Deus chama Nabucodonossor de “meu servidor” (Jer 27, 6).

Será que nós, hoje, temos a mesma abertura? Somos capazes de reconhecer o apelo de Deus em pessoas que não foram cristãs, mas que, talvez mais do que nós, souberam encarnar valores cristãos? Por exemplo: Ghandi, Mandela, Marx, Simone Weil, Gorbatchov, Rerbert se Souza (Betinho), e tantas outras?

No Novo Testamento o povo foi capaz de reconhecer Jesus como um profeta pelo fato de Ele curar os doentes. No Antigo Testamento a cura dos doentes nunca foi vista como ação profética. No tempo de Jesus, porém, a quantidade enorme de doentes era sinal de que a Aliança estava quebrada. A cura dos doentes feita por Jesus não era só um ato humanitário, era também e, sobretudo, um ato profético. Ele não só cura, mas reintegra os doentes ao povo de Deus (cf. Mc 1, 40-45). Assim, grita aos judeus: “Hipócritas! Vocês soltam o jumento para levar a beber, como é que eu não posso soltar esta filha de Abraão que estava amarrada há 18 anos por Satanás?” (Lc 13, 15-16).

Hoje há muitos “cacos”, muitos sinais de quebra da Aliança, espalhados pelo chão da nossa história, que estão exigindo uma nova ação profética. Esses “cacos” ferem os pés de muita gente. Como vai ser possível catá-los?

A Segunda Guerra Mundial, feita pelos cristãos, matou mais de 50 milhões de pessoas;
A dívida externa mantida por nações cristãs gera pobreza, fome e total dependência no Terceiro Mundo, tornando impossível sua libertação;
A fome já matou muito mais gente que a guerra.
A Guerra do Golfo feita por cristãos, judeus e árabes, três crenças que dizem ter fé no Deus Abraão.
Há muitos outros sinais…!
Como no Antigo Testamento, e nos tempos de Jesus, também hoje, o profetismo renasce, surgindo muitas vezes na margem. Há muitos sinais dessa nova presença profética, tanto na Igreja, como fora dela. Eis alguns sinais:

As Comunidades Eclesiais de Base (CBE’s);
Religiosos e religiosas, inserindo-se no meio dos pobres e fazendo-se alunos dos mesmos. Os Bispos e os Sacerdotes assumindo sua missão evangelizadora de maneira profética;
O Movimento Popular, que trouxe muita consciência crítica para dentro da Igreja;
Os novos instrumentos pastorais para servir ao povo e ao Movimento Popular: a CPT, o CIMI, CPO e tantas outras organizações;
O pentecostalismo cresce, sobretudo, entre os pobres. De que maneira este movimento representa uma voz profética que vem dos pobres para incomodar o mundo, as igrejas e as Congregações estabelecidas?
A consciência ecumênica crescente entre os cristãos;
O Movimento por Justiça, Paz e Ecologia;
Uma grande sede de espiritualidade. Neste contexto, o próprio movimento de renovação carismática, apesar de seu traço “espiritualista”, representa uma interpelação.
BIBLIOGRAFIA PARA CONSULTA
I) Básica:
1 – ELLIS, Peter F. Os Homens e a Mensagem do Antigo Testamento. Ed. Santuário: São Paulo, 1985.

Corrigido por Maycon Saiter

 


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