| COMO CONSTRUIR A NOVA HISTÓRIA
I. INTRODUÇÃO GERAL
“O que devemos fazer?” Essa pergunta aparece três vezes no evangelho deste domingo. Sua resposta traça um programa de vida para os cristãos em suas comunidades. O Natal que está para chegar marca a presença de Deus em nosso meio, “pequeno resto” que procura manter-se fiel ao Senhor. Conosco Deus quer construir nova história e nova sociedade (I leitura).
A celebração eucarística é o momento em que damos graças ao Pai, por meio de Jesus, no Espírito. Nossa oração, feita de agradecimento e súplica, é momento de discernimento e de compromisso com Jesus e seu projeto (II leitura), pois ele vai pôr às claras quem somos e o que fazemos para construir sociedade e história novas. A partilha do Pão da vida nos ensina a partilhar os bens da criação, na justiça e no serviço aos marginalizados (evangelho).
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Sf 3,14-18a): A história se reinicia com os pobres
Sofonias exerceu sua atividade profética em Jerusalém no tempo do rei Josias (640-609 a.C.). Foi, ao que tudo indica, uma das forças que levaram o rei a empreender a reforma político-religiosa após a descoberta, no Templo, do núcleo central do Deuteronômio (caps. 12-26).
De acordo com os estudiosos, a parte final de Sofonias (3,9-20), à qual pertencem os versículos da leitura deste domingo, não é do profeta, mas de um discípulo seu. Essa parte é um oráculo de restauração, acrescentado depois que os exilados voltaram da Babilônia. O objetivo desse acréscimo é mostrar as mudanças radicais promovidas em Judá. É uma mensagem de esperança dirigida à minoria que sobreviveu à catástrofe nacional (um pequeno resto, v. 13). A história do povo de Deus se reinicia com esse pequeno resto, composto de pobres. Com eles Javé vai construir a nova sociedade.
Os versículos escolhidos para a liturgia deste domingo estão repletos de otimismo, alegria e esperança (v. 14). São um convite à festa, à dança, pois chegou o dia do casamento entre Deus e seu povo (vv. 17-18a). O motivo de tanta alegria é este: O Senhor é rei de Israel! (v. 15b; essa expressão é o centro do texto). As mediações políticas (reis), com sua tirania, haviam levado o país à ruína (exílio). Agora, porém, surge nova liderança no meio do povo: é o próprio Deus que se torna rei de Israel, liderando e organizando o pequeno resto, iniciando com os pobres a nova sociedade e a nova história.
Olhando mais de perto o texto, pode-se perceber por que o Senhor é rei de Israel: 1. Ele é o juiz que anula a sentença de morte que pesava sobre o povo (exílio); 2. Ele forçou os inimigos a se retirar, deixando o povo voltar à própria terra; 3. Ele, vencendo os opressores, torna-se o rei de Israel e está no meio do povo como guerreiro e herói que salva; 4. Ele está no meio do povo como companheiro e esposo, com amor renovado.
A função primordial da autoridade política em Israel era defender o povo das ameaças externas, exercendo a justiça dentro do próprio país. Mas os reis de Judá, e sobretudo os de Israel, mostraram-se incompetentes, gananciosos, corruptos e opressores do povo. Quem pagou todos esses desmandos? A vítima foi o povo: os que foram levados para o exílio, mas sobretudo os que ficaram na terra, desorganizados e explorados, tendo de trabalhar para pagar a “dívida externa” do país.
Javé reabilita o povo. Liberta os cativos (as pessoas bem situadas na Babilônia não quiseram retornar) e organiza os que ficaram no país, dando-lhes nova identidade e sendo ele próprio seu líder, defensor e esposo. Com eles celebra novamente a aliança, recomeçando a história com os pobres e marginalizados.
2. Evangelho (Lc 3,10-18): Como construir a nova história
O texto de hoje mostra alguns dos modos pelos quais João prepara o povo para a vinda do Senhor. Lucas não está preocupado em detalhar toda a atividade de João Batista (cf. v. 18), pois a missão deste visa somente preparar o povo para a novidade trazida por Jesus. De fato, Lucas começa a falar da missão de Jesus apresentando os requisitos básicos contidos na pregação do Precursor. A nova história e a nova sociedade nascem da pregação de João e recebem pleno acabamento na prática de Jesus.
João está no deserto, onde batiza com batismo de conversão os que vão a ele. Sua pregação não leva as pessoas a se fechar em si mesmas ou em grupos. Nesse sentido, ele supera as expectativas dos zelotes, que aguardavam um messias guerreiro, capaz de resolver sozinho todas as graves questões sociais que afetavam o país; sua pregação supera o ritualismo dos fariseus, que pregavam um tipo de conversão voltada para dentro das pessoas, agarrados à observância da lei nos seus detalhes; supera a segregação grupal, como no caso dos essênios de Qumrã, para os quais se fazia necessário “fugir do mundo” para pertencer ao messias que estava para chegar.
O batismo de João quer situar as pessoas diante do julgamento de Deus, e esse julgamento exige renovação total. Nesse sentido, converter-se para acolher o Messias é mudar as relações entre as pessoas, pois os parâmetros da “história oficial” não servem para que as pessoas possam aderir à novidade que está para chegar.
O evangelho de hoje mostra alguns requisitos básicos para construir a nova história. São uma espécie de “programa de vida”:
a. Partilha (v. 11)
Por três vezes encontramos, no trecho deste domingo, a pergunta: “O que devemos fazer?” (vv. 10.12.14). Era a pergunta básica feita, nas comunidades primitivas, por aqueles que se apresentavam ao batismo (cf. At 2,37). João responde, em primeiro lugar, ao povo. Para construir a nova história, é necessário partilhar: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida faça o mesmo!” (v. 11). A partilha é o primeiro requisito para a construção da nova história e da nova sociedade: partilhar os bens da criação. Note-se que não se trata de esmola: quem tem duas túnicas reparte pela metade o que possui, dando uma a quem não tem. João mostra assim como surge a nova sociedade e a nova história, completamente diferente da “história oficial”, baseada na ganância e no acúmulo de bens em detrimento dos desfavorecidos. Naquele tempo, a maioria das pessoas tinha somente uma muda de roupa. Os ricos tinham duas ou mais. E havia os miseráveis, que andavam literalmente nus. Uma túnica, para a pessoa que tem duas, representa 50% daquilo que possui (veja 19,1ss, Zaqueu).
b. Justiça (vv. 12-13)
Os cobradores de impostos também se apresentam a João com a mesma pergunta: “Que devemos fazer?” O povo odiava os cobradores de impostos, pois eram colaboracionistas dos romanos e, por meio da pressão verbal ou da força militar (os soldados que os acompanhavam), exploravam o povo, enriquecendo fácil e ilicitamente. A resposta de João mostra qual é o segundo requisito fundamental para entrar na nova sociedade: “Vocês não devem cobrar mais do que a taxa estabelecida”. A missão de João, porém, é somente preparatória. Para os cobradores de impostos, converter-se significa entrar na justiça do Reino, não se limitando à justiça da “história oficial”. Isso se torna claro se olharmos a conversão de Zaqueu (cf. Lc 19,1-10): ele devolve, aos que explorou, mais do que a “justiça dos homens” estipulava.
c. Acabar com os abusos do poder (v. 14)
O terceiro grupo de pessoas que se apresentam a João são os soldados de Herodes Antipas, que acompanhavam os cobradores de impostos. Quando estes não conseguiam roubar o povo mediante pressões verbais, utilizavam-se da força militar da polícia. Esta intimidava, batia, levantava falsas acusações… Assim, cobradores de impostos e polícia viviam à sombra da impunidade e da tutela dos poderosos. Estavam entre os maiores violadores dos direitos humanos. Aos “homens da lei” João dá esta ordem: “Não tomem pela força o dinheiro de ninguém nem façam acusações falsas: fiquem contentes com o seu soldo!” Os abusos de poder não levam a construir sociedade e história novas.
d. Jesus vai eliminar o mal (vv. 15-18)
O programa de vida apresentado na pregação de João suscitou expectativas messiânicas no povo, que se pergunta se o Batista não seria o Messias (v. 15). A resposta de João o identifica como precursor da grande novidade. Ele é o que prepara a comunidade para o encontro com o esposo, o qual vai “batizar com o fogo do Espírito Santo” (v. 16). O Messias é Jesus. É ele quem vai realizar, com o povo que o segue, a nova história e a nova sociedade. Ele possui um “Espírito” que é novo, portador da própria santidade divina. O programa de vida de João é simples preparação para a acolhida do Messias.
O Messias vai trazer o julgamento à terra. O julgamento é descrito sob a metáfora do agricultor que, na eira, separa os grãos da palha: ele recolhe os grãos no celeiro e queima a palha (v. 17). A missão de Jesus vai mostrar “quem é quem” na sociedade e na história. Vai desmascarar a “história oficial”, cujo projeto é de morte. Urge, portanto, optar pela nova sociedade, associando-se aos que praticam a justiça que manifesta a presença do reino da vida.
3. II leitura (Fl 4,4-7): Alegrem-se sempre no Senhor
Os Atos dos Apóstolos (16,11-40) mostram como foi a fundação da comunidade de Filipos. Ela surgiu na casa de uma senhora de nome Lídia e em torno da família do carcereiro do qual Paulo salvou a vida. Filipos foi a primeira cidade da Europa a receber o anúncio do evangelho. A comunidade cristã nascida nessa cidade se caracterizou por estabelecer relacionamento estreito e solidário com a missão de Paulo, que tinha como norma não receber bens em troca de pregação. Mas com os filipenses foi diferente.
A comunidade ficou sabendo da prisão de Paulo (provavelmente em Éfeso, entre os anos 56 e 57) e lhe mandou uma ajuda, manifestando assim a solidariedade com o apóstolo e, sobretudo, com a causa do evangelho.
A carta aos Filipenses é uma coleção de três bilhetes que Paulo escreveu a essa comunidade em breve espaço de tempo. Cada um desses bilhetes tem preocupação própria. O texto de hoje contém algumas recomendações feitas em nome do Senhor. O apóstolo ficou sabendo que havia desentendimento entre duas mulheres líderes da comunidade. Isso causou divisões e descontentamento. Depois de fazer um apelo ao diálogo e à união das lideranças, Paulo convoca todos à alegria, um dos temas fortes da carta.
Ser cristão é motivo de alegria; é também apelo ao equilíbrio: “Como cristãos, alegrem-se sempre! Repito: Alegrem-se! Que todo o mundo note que vocês são compreensivos (= equilibrados). O Senhor está próximo” (4,4-5). A união da comunidade em torno de um objetivo comum – o projeto de Deus – é propaganda para os que estão fora da comunidade: vendo a união e a harmonia dos membros, os de fora percebem que o Senhor está próximo, morando no meio das pessoas (cf. I leitura).
O equilíbrio é remédio para os momentos de tensão. Paulo não ignora as dificuldades internas e externas enfrentadas pela comunidade. Por isso pede que tudo seja resolvido em clima de diálogo com as pessoas e com Deus, na oração: “Não se angustiem com nada, mas sempre, em orações e súplicas e com ação de graças, apresentem suas necessidades a Deus” (v. 6). Nem sempre o discernimento é suficiente para chegar à paz de Deus. Mas esta, uma vez buscada com vontade e coragem, será capaz de orientar, modificar ou aperfeiçoar as opções que a comunidade fez: a paz de Deus, que vai além de todo entendimento humano, guardará seus corações (a sede das opções profundas) e pensamentos em sintonia com o projeto de Cristo Jesus (cf. v. 7).
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
• A história se reinicia com os pobres. O Natal, que estamos prestes a celebrar, marca a presença definitiva do Deus pobre que se alia aos pobres para construir com eles a nova sociedade e a nova história (I leitura).
• Como construir a nova história. O evangelho deste domingo é um pequeno “programa de vida” para a comunidade cristã: viver a partilha, a justiça e o poder-serviço. O nascimento do Deus pobre desmascara a sociedade que se regula pela ganância, pela injustiça e pelo abuso de poder. Quais atos de partilha, justiça e serviço podemos realizar, tendo em vista a vinda do Senhor?
• Alegrem-se sempre no Senhor. Diálogo, união, equilíbrio, fraternidade e discernimento geram alegria e levam as comunidades e famílias ao crescimento contínuo. Ser cristão é processo dinâmico de ajustamento ao projeto de Deus (II leitura).
REVISTA VIDA PASTORAL
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