| A LIBERTAÇÃO ESTÁ PRÓXIMA
I. INTRODUÇÃO GERAL
Advento é tempo de grande compromisso com o projeto de Deus. Olhando a realidade do povo em nosso país, constatamos que há um abismo entre o que o Senhor quer e a situação em que se encontra a maioria da nossa gente. Contudo, os anseios do povo coincidem profundamente com o plano divino: a paz que é fruto da justiça. O povo quer dirigentes e governantes legítimos, dos quais possa cobrar seus direitos e justiça (I leitura).
A celebração eucarística é lugar onde o povo oprimido pode ficar de pé e levantar a cabeça, porque a libertação está próxima (evangelho). A morte e ressurreição de Jesus, celebradas na eucaristia, são a presença do Deus que age na história, julgando e libertando.
Celebrar é atualizar o amor de Cristo por nós, traduzindo-o em fraternidade e solidariedade, de modo que o mundo inteiro conheça o projeto de Deus e dele participe, pois o amor prepara a vinda de Jesus (II leitura).
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Jr 33,14-16): A paz é fruto da justiça
O capítulo 33 de Jeremias é uma promessa de restauração feita à cidade de Jerusalém e à dinastia davídica. O oráculo – que, segundo os estudiosos, não é de Jeremias, mas de um discípulo seu – situa-se em torno do ano 587 a.C., depois que Nabucodonosor sitiou Jerusalém durante um ano. É, portanto, uma mensagem de esperança para uma comunidade cercada de desespero, pavor e morte.
Os versículos escolhidos como primeira leitura deste domingo têm como tema a restauração da dinastia davídica (33,14-18). O profeta anuncia o cumprimento das promessas que Deus fez a seu povo: repatriar os exilados e constituir um rei que governe segundo o direito e a justiça (os versículos deste domingo contemplam só a segunda promessa).
Davi – símbolo do rei justo – havia deixado como testamento a seguinte afirmação: “Quem governa os homens com justiça, e quem governa segundo o temor de Deus, é como a luz da manhã ao nascer do sol, manhã sem nuvens depois da chuva, que faz brilhar a grama da terra” (2Sm 23,3b-4). A história dos reis de Judá não registra com tanta frequência os atos de justiça das autoridades máximas do país. Mais ainda: o último rei durante a atividade de Jeremias é um tal de Sedecias (nome que significa Javé-minha-justiça), rei fantoche cujo poder foi legitimado por Nabucodonosor, do qual Judá conhece a crueldade, ambição e violência. Foi Nabucodonosor quem deu esse nome a Sedecias. Ora, para os antigos, dar ou mudar o nome de alguém significava, respectivamente, dar-lhe nova identidade ou manipular essa pessoa. Foi o que aconteceu com Sedecias. E a “justiça” que Sedecias tentou instaurar foi a do invasor e opressor do povo.
Não é por aí que se realizam as promessas de Javé. A nova autoridade, surgida da descendência de Davi, será um fruto santo (literalmente: um rebento santo, v. 15a). A imagem vegetal do broto novo mostra que Deus toma a iniciativa, suscitando, gratuita e generosamente, nova autoridade para o povo. A função dessa nova autoridade é fazer valer o direito e a justiça no país (v. 15b). Em outras palavras, a legitimidade do governo consiste na administração da justiça. E quem legitima essa autoridade é o próprio Deus. A carteira de identidade do governo que Javé vai suscitar para o povo será o cumprimento da justiça que Deus deseja. O nome (= a identidade) do rei é Javé-nossa-justiça (v. 16b).
Quais as consequências de um governo que se preocupa fundamentalmente com o direito e a justiça? O texto de hoje aponta uma delas: “Jerusalém habitará em segurança” (v. 16a). Resultado de administração justa é uma sociedade que vive em paz e segurança. Para os antigos, a cidade é o lugar privilegiado da convivência social. Mas é também lugar onde podem ser notadas, em grau elevado, as consequências da exploração, quando as autoridades deseducam o povo em relação ao direito e à justiça, apesar de estarem cheias de “boas intenções” e programas. A cidade pode se tornar lugar de comunhão ou lugar onde as pessoas se devoram mutuamente. De acordo com a promessa de Jeremias, a cidade se tornará lugar de comunhão, paz e segurança quando o rei cumprir e fizer cumprir a justiça de Deus: Javé-nossa-justiça. E o que isso significa? Em outras palavras, a autoridade só é legítima quando traduzir a segurança e a paz social em termos de vitória sobre a corrupção, interna ou externa, que lesa, oprime e mata o povo; quando atender às reivindicações dos empobrecidos. Quando isso acontecer, o povo dará ao governo um nome significativo: “Ele é a própria justiça de Deus” (Javé-nossa-justiça). Parece não ser isso o que está acontecendo hoje no meio de nós. De fato, quais são os “nomes” que o povo dá, hoje, aos que nos governam?
2. Evangelho (Lc 21,25-28.34-36): Fiquem de pé e levantem a cabeça, porque a libertação está próxima!
O capítulo 21 de Lucas é um apocalipse. É uma forma de escrever estranha para nós. Ao ler um texto apocalíptico, muita gente pensa que o autor esteja falando de coisas do futuro, do fim do mundo etc. O que dizer disso?
O gênero literário apocalíptico não quer falar de coisas que vão acontecer num futuro remoto ou próximo. É um modo misterioso de falar sobre as coisas do tempo presente. É uma linguagem para tempos difíceis cuja finalidade é animar as comunidades para a denúncia profética e para a resistência diante de tudo o que se opõe ao projeto de Deus.
O apocalipse de Lucas (cap. 21) fala da história passada e presente e, se quisermos, fala também das propostas de caminhada para os cristãos que vivem em meio a uma sociedade conflituosa. Quando Lucas escreveu o evangelho, a cidade de Jerusalém já tinha sido destruída (ano 70 d.C.). Ora, parte do cap. 21 trata desse tema (vv. 5-24). Ao lermos o texto, temos a impressão de que as coisas estão ainda por acontecer. Por que, então, o evangelista descreve a destruição de Jerusalém? A primeira lição que a comunidade cristã tira desse acontecimento é a seguinte: o fim da cidade que matou Jesus não é o fim do projeto de Deus. O cristianismo tem um caminho aberto pela frente. Em outras palavras, a escatologia de Lucas não pretende instruir sobre o fim dos tempos: ela já se iniciou com a encarnação, morte e ressurreição de Jesus. É aqui, em nossa história cheia de conflitos, que somos chamados a levantar a cabeça e ficar de pé, pois nossa libertação está próxima, ou seja, está em curso, uma vez que o Cristo, tendo vencido as forças da morte, está vivo e virá para nos salvar definitivamente.
a. Jesus está presente em nossa história como aquele que julga (vv. 25-28)
É próprio da apocalíptica traduzir, por meio de sinais grandiosos, a presença do Filho do homem na história. Os vv. 25-28 não fogem à regra e mostram alguns desses sinais no sol, na lua e nas estrelas (v. 25a). No Antigo Testamento, essas catástrofes cósmicas são sinônimo da presença do Deus que age na história em favor de seus aliados. O livro do Apocalipse nos ajuda a entender melhor esse sinal. Lá, os abalos cósmicos são prenúncio da novidade que Deus vai criar. Há, no mundo, uma expectativa de novidade, marcada por esses fenômenos. Algo de completamente novo está para acontecer. Isso se torna mais claro no final do Apocalipse, quando são criados novos céus e nova terra.
Na nova Jerusalém já não existirão sol, lua, estrelas. Tudo é novo. E essa novidade é resultado da própria ação de Deus, que tem poder sobre os elementos cósmicos. Portanto, longe de assustar, esse tipo de linguagem quer animar, dar esperança e fortalecer na resistência. Isso vale também para Lucas.
A vinda do Filho do homem é descrita no v. 27 como o próprio poder de Deus que age na história. A nuvem, sobre a qual ele está, é símbolo do poder e da glória divina que o Filho possui.
Sua vinda é marcada pelo julgamento dos que se opõem ao projeto de Deus. Isso é demonstrado nos vv. 25b-26: “Na terra as nações cairão em angústia, assustadas com o barulho do mar e das ondas; os homens vão desmaiar de medo só em pensar no que ameaça o mundo, porque até as forças do céu serão abaladas”. E é demonstrado também no v. 27: “Então eles verão o Filho do homem vindo numa nuvem com grande poder e glória”. Quem são os que verão o Filho do homem? Os que se opuseram a ele e aos discípulos, aos quais foi confiado o projeto de Deus. Esse versículo se inspirou em Dn 7,13-14, que possui forte conotação de julgamento. A vinda do Filho do homem, portanto, é marcada em primeiro lugar pelo julgamento dos que rejeitaram as propostas do Reino.
Com essas imagens estranhas, baseadas em catástrofes cósmicas, o evangelista pretende afirmar que os inimigos do projeto de Deus (as nações) vão perdendo, por força do testemunho das comunidades cristãs, as máscaras que ocultavam a injustiça e a perversidade da sociedade estabelecida. A vinda do Filho do homem, portanto, não é algo que se deva esperar passivamente. Ao contrário, é já uma presença, cuja manifestação depende do testemunho dos cristãos.
Em segundo lugar, a vinda do Filho do homem é salvação dos que permanecem fiéis: “Quando estas coisas começarem a acontecer, fiquem de pé e levantem a cabeça, porque a libertação está próxima” (v. 28). A palavra libertação, certamente inspirada no pensamento de Paulo, é o resgate que Cristo pagou com seu sangue. O termo lembra a compra dos escravos: alguém nos resgatou, a preço de sangue, para que vivamos desde já como pessoas livres (cf. 1Cor 6,20; Gl 5,1). Contudo, o processo de libertação continua mediante a prática da justiça e o esforço para recriar a humanidade de acordo com o projeto de Deus. Isso é tarefa dos discípulos de Jesus. Ao dar continuidade ao processo de libertação, os cristãos enfrentam os conflitos e perseguições dos que não desejam que as coisas mudem. Nesse combate, o Filho do homem é nosso aliado e juiz. Ele declara inocentes (faz ficar de pé) os que lhe forem fiéis e lhes dá vitória (levanta a cabeça).
b. Como ficar de pé e levantar a cabeça (vv. 34-36)
Os vv. 34-36 são um apelo à vigilância; não no sentido de expectativa de algo que está para acontecer, mas vigilância como discernimento do que leva ou não ao projeto de Deus: “Cuidado para que a consciência de vocês não fique entorpecida com festanças, bebedeiras e preocupações da vida, para que aquele Dia não os apanhe de surpresa” (v. 34). Os primeiros cristãos pensavam que a segunda vinda de Cristo aconteceria em breve. Diante disso, muitos deles deixaram de ter aquela garra que caracterizava os inícios das comunidades cristãs, passando a levar vida mansa, sem trabalhar, vivendo à custa dos outros (cf. 1Ts 5,14; 2Ts 3,6-12). Para Lucas, não é assim que se espera a vinda do Filho do homem.
Ao contrário, mediante a lucidez, o senso crítico em relação à sociedade e aos acontecimentos da história, é que as pessoas vão descobrindo a presença do Deus que age conosco e em nosso favor. Quem vive de consciência entorpecida pela ideologia é como se estivesse em permanente ressaca: não é capaz de discernir o momento e a urgência da prática cristã. E o julgamento de Deus (aquele Dia) cai sobre essas pessoas como rede (v. 35).
A norma que o evangelho dá, a fim de que as pessoas possam ficar de pé diante do Filho do homem, é esta: “Fiquem sempre acordados e rezem para ter força” (v. 36a). Trata-se de vigilância ativa, acompanhada pela oração-discernimento: a vinda do Filho do homem não é expectativa passiva de acontecimentos futuros. É prática cristã que não se acomoda (fiquem acordados), mas procura adequar-se, mediante a oração, à vontade de Deus.
3. II leitura (1Ts 3,12–4,2): O amor prepara a vinda de Jesus
Tessalônica, com seus inúmeros contrastes sociais, era uma das grandes metrópoles do primeiro século da era cristã. Obrigado a fugir de Filipos, onde fora torturado e quase morto, Paulo se refugiou nessa cidade, onde fundou uma comunidade, organizando-a. Perseguido, teve de abandonar Tessalônica às pressas, sem poder acabar a catequese sobre o ser cristão. Estando em Atenas, mandou para lá Timóteo, a fim de sentir de perto como andava aquela comunidade. Voltando, Timóteo encontrou Paulo em Corinto e lhe contou os progressos feitos pela comunidade e sua resistência diante das perseguições sofridas. De Corinto, Paulo escreve aos tessalonicenses, a fim de manifestar seu contentamento e ação de graças pela perseverança (caps. 1-3). E aproveita a oportunidade para acrescentar algumas instruções (caps. 4-5). Nasce, assim, o primeiro escrito do Novo Testamento.
A comunidade de Tessalônica aderiu ao evangelho com grande alegria. Seus membros passaram a viver o ideal de comunhão e solidariedade fraternas próprias de quem abraça a novidade do projeto de Deus, afastando-se do modo de viver da sociedade daquele tempo, que discriminava e marginalizava pessoas. Nessa comunidade, o amor e a solidariedade eram as normas que regiam o relacionamento entre as pessoas.
Paulo elogia, na primeira parte da carta, o comportamento dessa comunidade. Contudo, crê serem necessários ainda alguns progressos. Com isso, mostra que o projeto de Deus é dinâmico: “O Senhor lhes conceda crescer e prosperar no amor de uns para com os outros e para com todos, a exemplo do amor que temos por vocês” (3,12). A comunidade cristã não vive o amor em circuito fechado. É próprio do amor expandir-se dentro e também fora da comunidade. Nessa dinâmica, atinge-se a santidade que agrada a Deus e prepara-se a vinda de Jesus, nosso Senhor (v. 13). A prática de Jesus, traduzida na prática do agente de pastoral, vai contagiando e fermentando a sociedade toda.
A seguir, Paulo inicia a parte exortativa (caps. 4-5), na qual apresenta o que ainda falta à comunidade, a fim de que esta manifeste plenamente a novidade do reino de Deus. O apóstolo tem consciência de que sua conduta é ponto de referência para a plena manifestação do projeto de Deus: “Enfim, meus irmãos, vocês aprenderam de nós como devem viver para agradar a Deus e já estão vivendo assim. Porém lhes pedimos com insistência, no Senhor Jesus, que façam maiores progressos ainda” (4,1). A insistência é feita “no Senhor Jesus”. Ele se tornou, para a comunidade cristã, o centro de suas vidas. Interessante notar que, ao fundar a comunidade, Paulo não possui o evangelho escrito para apresentá-lo à comunidade. O evangelho é a pessoa de Jesus, cuja prática o agente de pastoral procura viver (4,1) e transmitir plenamente (v. 2).
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
• A paz é fruto da justiça. A I leitura aponta um dos compromissos deste Advento: trabalhar para construir uma sociedade justa. Essa é a vontade de Deus. A prática da justiça passa pela organização da comunidade, pela reivindicação dos direitos dos empobrecidos e marginalizados, pela mobilização de todos. É também tomada de consciência. O que fazer quando nossas lideranças políticas e religiosas não merecem o nome de “Javé-nossa-justiça”?
• Fiquem de pé e levantem a cabeça, porque a libertação está próxima. O evangelho ensina a não esperar passivamente a vinda do Filho do homem. O que fazer para ficar de pé? Como levantar a cabeça em meio aos conflitos da sociedade?
• O amor prepara a vinda de Jesus. A comunidade de Tessalônica era solidária e fraterna. Mas precisava crescer no amor dentro e fora de si. Que passos precisamos dar na fraternidade e solidariedade, a fim de preparar a vinda do Senhor?
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