Vou procurar responder, na minha intervenção, a esta
pergunta: como é que a fé cristã olha para alguém que está
na iminência da morte, em resultado de uma doença grave e
incurável, e a quem se procura proporcionar o máximo de
dignidade e o mínimo de sofrimento, com a ajuda de todos
os meios médicos disponíveis, e em especial dos chamados
«cuidados paliativos»?
Uma esperança mais forte do que a morte
Importa dizer, antes de mais, que o olhar para uma pessoa
que se aproxima da morte não é nunca antropologicamente
inocente ou indiferente, nem simplesmente técnico, mas
tributário de uma visão mais vasta do mundo e do homem,
que nesse olhar atinge, porém, uma expressão
particularmente decisiva e relevante.
Segundo a visão cristã, a iminência da morte não é somente
um momento dramático e normalmente muito doloroso, do
ponto de vista físico, moral e espiritual, mas pode ser
também – não digo que necessariamente o seja – uma ocasião
única e inigualável para atribuir, ou deixar que seja
atribuído, um sentido definitivo à vida inteira.
Um exemplo particularmente expressivo dessa capacidade de
«salvar» a vida – falo aqui em termos antropológicos e
também teológicos – no instante derradeiro antes da morte,
é o que encontramos num texto muito conhecido do Novo
Testamento, do Evangelho de S. Lucas, em que um homem
condenado à morte e crucificado, se dirige a Jesus Cristo,
crucificado como ele, e Lhe faz este pedido: «Jesus,
lembra-te de mim, quando vieres com o teu reino». Pedido
espantoso, de um condenado a um outro condenado, nenhum
dos quais terá mais do que breves momentos de vida, e a
que Jesus responde, de modo não menos espantoso: «Em
verdade, Eu te asseguro: hoje estarás comigo no Paraíso» (Lc
23, 42-43). A afirmação fundamental desta resposta é que
Jesus quer receber o bom ladrão em comunhão consigo
imediatamente depois da morte[1][1][1].
E assim, uma vida cheia de crimes, que ele próprio
reconhece ter praticado (Lc 23, 41), ganha no
último momento um novo sentido, tal como antes nunca
tivera, e acede a uma vida nova, mais forte do que a
morte.
Um sentido novo para o sofrimento
No entanto, não se trata de um caso idêntico ao que agora
nos ocupa, este homem não estava doente, era um condenado
à morte, a quem a vida foi violentamente retirada pela
justiça dos homens, mas que conseguiu ultrapassar o
supremo desespero dessa situação limite por um acto de fé
em Jesus, imprevisível e humanamente inexplicável.
A situação dos doentes que se encaminham para a morte em
sua casa ou numa instituição hospitalar é, evidentemente,
muito diferente. Julgo que não haverá um só que aceite que
o seu sofrimento é uma simples questão de justiça, ou um
castigo por erros do passado, e com razão, porque o
próprio Jesus rejeita essa interpretação do sofrimento
como um castigo de pecados antigos, próprios ou alheios.
Um passo do Evangelho de S. João conta que um dia, «ao
passar, Jesus viu um homem, cego de nascença. Os seus
discípulos perguntaram-Lhe: 'Rabi, quem pecou, ele ou os
seus pais, para que nascesse cego?' Jesus respondeu: 'Nem
ele nem seus pais pecaram, mas é para que nele sejam
manifestadas as obras de Deus'» (Jo 9, 2-3).
A fé cristã não tem uma resposta simples ou académica para
a pergunta: «Porquê o sofrimento?». Nem para a pergunta:
«Porquê a morte?» Se alguém me perguntar, terei de
responder que não sei, tal como a mãe dele não sabe, por
que razão é que a doença de um rapaz da minha paróquia, o
Francisco, que estava razoavelmente controlada, e nem o
tinha impedido de entrar na universidade, nem de ir a
Paris, para participar na Jornada Mundial dos Jovens, se
agravou subitamente, e ele morreu um ano depois, com vinte
anos.
Então é assim? A fé cala-se, quando, mais que nunca, era
preciso que falasse? Não, a fé não se cala. A fé faz
silêncio para escutar e para ver melhor. A fé cristã não
dá uma resposta fácil à questão do sofrimento, mas convida
a ver uma presença, misteriosa mas real, ao lado daquele
que sofre, ou daquele que morre. Ao lado de um homem ou de
uma mulher que sofre, e ainda mais quando a sua vida está
a ponto de se extinguir, a fé cristã reconhece uma
presença, que é humana e divina ao mesmo tempo, que não é
portadora de uma consolação imediata ou sensível, mas sim
de um sentido novo e definitivo para esse sofrimento
intenso, para essa vida que se esgota, exactamente como
aconteceu, afinal, com o «bom ladrão», crucificado ao lado
de Jesus.
Esta presença vence até a solidão da morte, que, de facto,
é inacessível, para quem está de fora. A morte dos outros
é uma fronteira que nunca transpomos. É uma experiência
absolutamente impenetrável, porque cada homem morre
sozinho, como homem privado, sem intermediários nem
companheiros de viagem, porventura assistido, mas nunca
substituído. Ninguém poderia tomar o seu lugar: nem viver
a sua vida, nem viver a sua morte
[2][2][2].
Como escreveu um filósofo russo, Nicolaj Berdiaef, «os
vivos podem
acompanhar o moribundo até ao último umbral, e ele pode
sentir-se acompanhado por eles, principalmente se é a
comunhão dos santos que o acompanha pela fé em Cristo. Mas
só como solitário pode atravessar a porta estreita»
[3][3][3].
Há, no entanto, um passo do Apocalipse, que é um livro
considerado difícil mas cheio de beleza e serenidade, que
diz: «Felizes os mortos, os que desde agora morrem no
Senhor» (Ap 14, 13), o que significa que, ao
contrário das aparências, aqueles que morrem, não morrem
sozinhos, mergulhados na mais profunda solidão, morrem «no
Senhor», unidos a Ele, acompanhados por Ele, acolhidos por
Ele.
Num outro texto, de uma carta de S. Paulo, lê-se o
seguinte: «Nenhum de nós vive para si mesmo, e nenhum de
nós morre para si mesmo. Se vivemos, vivemos para o
Senhor, e, se morremos, morremos para o Senhor. Portanto,
quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor. Na
verdade, Cristo morreu e ressuscitou, para ser o Senhor
dos vivos e dos mortos» (Rom 14, 7-9). Há aqui um
sentido de pertença, que supera teologicamente a solidão
ontológica, física ou psicológica.
O mistério de uma presença
Esta convicção de que existe uma presença no próprio
terreno da definitiva ausência ou da derradeira solidão, é
manifestada e significada em alguns gestos ou sinais, que,
segundo a fé cristã, não apenas simbolizam, mas realizam
aquilo que significam, e a que se dá o nome de
«sacramentos». Trata-se, em especial, da Penitência ou
Reconciliação (ou Confissão), da Unção dos Enfermos e da
Eucaristia.
É sumamente desejável que um doente em estado grave ou
terminal os possa receber. Em muitos casos, a recepção
desses sacramentos, livremente pedida ou pelo menos
desejada pelo doente (o que se pode presumir, se houver
motivos sérios para o fazer), trará consigo o dom gratuito
desse sentido, talvez longamente procurado, mas nunca
encontrado, senão nesse momento. Noutros casos, será o
selo de um encontro já vivido desde há muito, mas que
ganha então uma dimensão nova e definitiva, que a morte em
breve virá confirmar.
A recepção destes sacramentos nunca é banal, sobretudo
quando é previsível a iminência da morte. Há cerca de um
ano, fui visitar uma senhora idosa que tinha sido
internada na véspera num hospital, devido a uma doença que
já tinha há muito, mas que se agravara subitamente. Era
previsível que não tivesse mais do que algumas semanas de
vida, como de facto aconteceu. Costumava visitar essa
senhora com uma certa frequência, para a confessar, e
sempre fui recebido com alegria e sincera amizade.
Nesse dia, porém, quando entrei no quarto onde estava,
notei, por um breve instante, um olhar diferente, a
princípio de surpresa e logo em seguida de aceitação. A
senhora, de quem também era muito amigo, compreendeu que
eu tinha vindo porque o seu estado era grave. Deve ter
entendido que podia estar perto a hora da sua morte. Mas o
espanto do início tornou-se logo aceitação serena.
Recordei-lhe que os sacramentos que ia receber lhe traziam
a força e a graça de Deus para aquele momento de doença e
de sofrimento em que estava. Nunca falei de morte. Também
não era necessário, porque, de certo modo, estes
sacramentos relativizam a morte, que deixa de ser um
absoluto, um fim inelutável, mas, integrada no mistério de
uma presença, passa a ser o que sempre devia ter sido: uma
simples fronteira, por onde se passa para uma vida plena e
eterna.
Uma ponte para o futuro absoluto
Ao doente, que muitas vezes já não fala, e por vezes não
vê nem ouve, cujas funções vitais se reduziram
drasticamente e cuja vida se aproxima do termo, é dada a
suprema graça não só de ser interlocutor de Cristo, de se
dirigir a Ele, como o «bom ladrão», mas de se identificar
com Ele. De certo modo, também aqui se torna «outro
Cristo», «o próprio Cristo».
É o que se reflecte no relato escrito, já há algumas
décadas, por um conhecido teólogo suíço, o Cardeal Charles
Journet, da visita que fez a um padre dominicano seu
amigo, judeu convertido, chamado Jean de Menasce,
personalidade muito rica e forte, mas que estava nesse
momento como que «reduzido a nada»: «Estou a vê-lo,
escreve o Cardeal Journet, imobilizado na cama do
hospital, depois da traqueotomia, quando já não nos podia
dirigir nenhum sinal, de olhos muito abertos,
profundamente fixados no tecto da sala, a respiração
marcada pelo vaivém da agulha no motor da máquina. Um
único indício asseverava que ainda tinha consciência: uma
lágrima que despontava, como uma pérola, nos bordos da
pálpebra, no momento em que se murmuravam junto dele as
orações luminosas da Igreja que lhe eram tão caras. Pura e
doce imagem do Cordeiro imolado desde o princípio do
mundo…»[4][4][4].
É possível que em muitos outros casos não haja nenhum
indício, nenhum sinal de consciência. Mas também então,
mesmo reduzido «a nada», o doente continua a ser «alguém»,
uma pessoa, e por isso também então a oração e os
sacramentos têm sentido, não só como portadores de uma
graça sobrenatural, mas como expressão de uma comunhão
entre os crentes que partilham a mesma fé e a mesma
esperança.
Estes gestos religiosos podem, do ponto de vista formal,
ser entendidos como o exercício de um direito legítimo,
que ninguém teria a capacidade de negar, e felizmente são
reconhecidos a esse nível nos diversos ordenamentos
jurídicos e nos regulamentos das instituições
hospitalares, mas são sobretudo a expressão de uma
sintonia, de uma solidariedade, de um respeito profundo e
de uma amizade muito forte que, sem deixar de ser
sobrenatural, é também profundamente humana.
Quando se pretende atenuar o sofrimento e dignificar a
condição dos doentes terminais, tem todo o cabimento, mais
ainda, é importante, é premente facilitar e até promover
estes momentos, de acordo com a consciência e as
convicções dos próprios interessados, e das suas famílias,
os quais não são apenas actos isolados, mas gestos que dão
sentido a uma vida inteira, uma vez que, na luz da fé,
assumem o passado, unificam o presente e lançam uma ponte
para o futuro absoluto, para lá da fronteira da morte, no
próprio coração de Deus.