APRESENTAÇÃO
Apresentamos à Igreja no Brasil este Documento Batismo de
Crianças - Subsídios teológico-litúrgico-pastorais.
HISTÓRIA
No 4º Plano Bienal dos Organismos Nacionais da CNBB,
1977-1978, constava o projeto Celebração do Batismo de
Crianças com Grupos Populares sob o nº 1.7 do Programa I,
Comunidades Eclesiais de Base.
O 1º texto foi redigido, revisto e aprovado num Encontro
de Bispos e peritos em Liturgia, Pastoral e Meios
Populares, realizado no Rio de Janeiro.
Esse texto foi enviado aos Regionais para suas
contribuições.
Em abril de 1979, por decisão da Assembléia da CNBB, o
Documento foi examinado por uma Comissão Especial de
Liturgia, integrada por representantes escolhidos pelos
Regionais.
A Comissão, apesar de valorizar o Documento, julgou
oportuno fosse ele reelaborado, transferindo-se seu exame
e sua votação para a Assembléia de 1980.
O novo texto foi, em novembro de 1979, examinado por uma
Equipe de Peritos num Encontro em São Paulo e, em
dezembro, enviado aos srs. Bispos.
A Assembléia Geral extraordinária da CNBB, em fevereiro de
1980, aprovou, com emendas, o novo texto por unanimidade,
havendo apenas uma abstenção.
O DOCUMENTO
Este Documento não desfaz o 1º Documento, de todos
conhecido, sobre a Pastoral do Batismo, editado em 1973,
mas o completa, com subsídios teológicos que ajudam a sua
compreensão a partir dos passos progressivos da própria
celebração batismal, como também com subsídios
litúrgico-pastorais, que ajudam sua celebração de maneira
mais adaptada à cultura e à índole simples da maioria do
nosso povo.
À Introdução seguem-se três partes e uma breve Conclusão:
Na Introdução, apresentam-se os objetivos do Documento, a
razão de ser da adaptação do rito, a situação da
celebração batismal no Brasil, em seu contexto geral e
especial, e a divisão.
Na I Parte: "Sentido teológico do sacramento do batismo, a
partir do rito", oferecem-se subsídios teológicos,
percorrendo a seqüência da celebração batismal, à
semelhança das catequeses mistagógicas, nas quais,
revelando-se o sentido dos ritos, introduzem-se os fiéis
na compreensão e vivência dos sacramentos.
Na II Parte: "Sugestões para a preparação do batismo",
depois de recordar inicialmente a necessidade de uma
pastoral orgânica para uma celebração ideal do batismo,
apresentam-se subsídios pastorais relativos à sua
preparação remota e próxima.
Na III Parte: "Sugestões para uma celebração mais adequada
do batismo", depois de algumas observações prévias,
propõem-se vários subsídios relativos à maneira de
realizar cada rito da liturgia batismal.
Na Conclusão, faz-se um apelo aos agentes de pastoral e
situa-se o Documento dentro do objetivo geral da Ação
Pastoral da Igreja no Brasil.
VALOR
O Documento respeita o Ritual do Batismo, enriquecendo-o
de subsídios teológico-litúrgico-pastorais.
Não tem caráter obrigatório, deixando aos srs. Bispos
liberdade em sua aplicação.
Entretanto, sua aprovação pela Assembléia é de um valor
pastoral incalculável, porque, recolhendo esforços
pastorais dispersos pelo Brasil, ajuda ao mútuo
enriquecimento das Igrejas e cria melhores condições, em
matéria de Liturgia, para uma sadia unidade na pastoral
orgânica de todo o país.
Colocando este Documento nas mãos da Igreja que vive no
Brasil, esperamos atender ao grande objetivo que os Bispos
do Brasil se propuseram: oferecer orientações para a
celebração do Batismo de Crianças, de um modo mais
adaptado à cultura e à índole de nosso povo, em sua
maioria simples.
Dom Romeu Alberti
Responsável pela Linha da Liturgia
INTRODUÇÃO
1. Objetivos do presente documento
1. Por ocasião da 13ª Assembléia Geral da
CNBB, em fevereiro de 1973, os Bispos do Brasil aprovaram
um documento intitulado "Pastoral do Batismo", inserido no
opúsculo "Pastoral dos Sacramentos de Iniciação Cristã"
publicado na Série "Documentos da CNBB", sob o nº 2b.
Visava-se, com aquele documento, a "uma renovação da
pastoral batismal" e "esclarecer problemas práticos,
decorrentes da situação atual da Igreja no Brasil" (cf.
Pastoral do Batismo, Introdução).
2. Uma recomendação, no final do documento
citado, pedia a realização de duas tarefas: "Solicitamos
aos órgãos competentes a preparação de orientações
práticas sobre a maneira de celebrar o batismo, bem como a
tarefa de promover a adaptação do rito à cultura e índole
do nosso povo" (cf. SC 37-40; Ibid., nº 6,1).
3. O presente documento deseja, ao menos em
parte, corresponder àquele pedido. Refere-se primariamente
à liturgia ou celebração do sacramento do batismo, tendo
em vista, sobretudo, a grande maioria de nosso povo —
trabalhadores rurais, operários e outros assalariados
urbanos — com o fim de oferecer pistas para adaptar a
celebração ao seu mundo e à sua mentalidade. Trata-se de
um esforço criativo e inicial de aculturação, que
apresenta, em vários momentos, sugestões
litúrgico-pastorais alternativas a serem aproveitadas
conforme as diversas circunstâncias.
2. Razão de ser da adaptação
4. Os Bispos, no Concílio Vaticano II,
reconheceram a utilidade e mesmo a necessidade de adaptar
a liturgia à índole dos diferentes povos. Basta lembrar
duas passagens da Constituição sobre a Sagrada Liturgia:
"Salva a unidade substancial do rito romano, dê-se lugar a
legítimas variações e adaptações para os diversos grupos,
regiões e povos" (SC 38).
5. Tanto "A Iniciação Cristã — Observações
Preliminares Gerais" (nº 30-33) como a introdução ao "Rito
da Iniciação Cristã dos Adultos" (nº 64 e ss) trazem um
capítulo expresso sobre as "adaptações que podem ser
feitas pelas Conferências Episcopais". A tais adaptações é
que se refere a recomendação do Episcopado Brasileiro
transcrita acima.
6. Oferecem-se algumas pistas para as
Igrejas particulares, situadas em contextos
sócio-econômico-religiosos tão diversificados, como as
encontramos nas várias regiões do País, seja no interior
seja nos centros urbanos e suas periferias.
7. Com efeito, este sacramento merece
especial atenção por duas razões: primeiro, por ser
celebrado com freqüência; segundo, por ser fundamental e
revelador para todo o conjunto da vida cristã.
3. Situação da celebração do batismo no
Brasil
a) Contexto geral da situação
8. Poderíamos iniciar o exame da liturgia
batismal no Brasil, recordando o fato pastoral descrito no
Documento "Pastoral do Batismo", em especial, as razões
que levam os fiéis a pedir o batismo para seus filhos (nº
1.1-3) e as atitudes dos pastores frente a esse pedido (nº
4,1-4.4).
9. Naquele documento, apresentam-se razões
com conotações de natureza teológica mais acentuada,
razões supersticiosas, razões de cunho social e razões de
ordem econômica — algumas válidas, outras questionáveis —
para, tomadas em conjunto, tentar esclarecer o fato de a
população do Brasil ser, na sua quase totalidade, uma
população de batizados.
10. Em relação à atitude dos pastores,
observava-se uma diversidade de linhas de ação no tocante
à administração do sacramento do batismo indo desde a
negação do batismo às crianças até à exigência de uma
séria preparação, no contexto de uma renovação de toda a
vida eclesial.
b) Contexto especial da situação da celebração do
batismo no Brasil
11. Voltando nossa atenção para a própria
celebração do batismo, recordamos o quadro já decidido na
"Pastoral do Batismo" (nº 3) destacando quanto segue:
a)
Existem comunidades eclesiais no Brasil em que a
celebração do batismo, bem como sua preparação e posterior
acompanhamento, constituem um exemplo a imitar. Muitas das
orientações e sugestões que aparecem neste documento já
estão sendo praticadas em tais comunidades.
b)
Em muitas outras comunidades eclesiais, porém,
verificam-se deficiências que repercutem negativamente na
vida cristã das pessoas e das próprias comunidades.
São estas as falhas que ocorrem com maior freqüência:
• Preparação insuficiente, quando não
inexistente, de pais e padrinhos, antes teórica que
vivencial, por vezes mais burocrática que pastoral, sem o
auxílio de uma equipe formada para esse trabalho, sem
distinção entre cristãos afastados da Igreja e cristãos
integrados na vida comunitária.
• Celebração apressada ou rotineira,
sem animação e entusiasmo, sem explicação do sentido dos
ritos, sem distribuição de funções dentro de uma equipe de
celebração, sem variação ou adaptação aos diferentes
grupos; mera execução mecânica de cerimônias; leitura
inexpressiva de textos.
• Passividade dos presentes, muitas
vezes desprovidos de participação e vivência.
• Visão do batismo como assunto individual, sem
implicações para com a Igreja e cada comunidade eclesial.
• Redução do batismo a um fato
social, que responde a uma tradição familiar e cultural ou
a uma obrigação religiosa, desconhecendo sua natureza de
celebração de um mistério, de um acontecimento religioso
fundamental, isto é, a inserção em Cristo, a incorporação
à Igreja, a purificação do pecado, a filiação divina etc.
• A fragilidade ou mesmo ausência de
compromisso com a educação da fé e o desenvolvimento da
vida cristã e eclesial da criança, por parte dos pais,
padrinhos e da comunidade.
• A importância desproporcional
atribuída aos padrinhos, em prejuízo dos pais, que são os
que decidem o batismo dos filhos e se responsabilizam pelo
desenvolvimento da vida cristã iniciada no batismo.
• A escolha de padrinhos sem levar em
conta a sua situação em relação à Igreja e a sua vida
cristã.
• Concepções mágicas e supersticiosas
acerca do batismo, presentes tanto na solicitação do
batismo como em sua celebração.
• a evasão de cristãos menos
conscientizados para outras paróquias ou dioceses onde não
se fazem exigências de preparação para o batismo.
• exigências demasiado rígidas com o
perigo de transformar a Igreja em grupo fechado (gueto)
numa atitude injusta para com pessoas não suficientemente
esclarecidas.
4. Divisão do documento
12. O presente documento compreende, além da
Introdução, as seguintes partes: Sentido teológico do
sacramento do batismo a partir do rito; Sugestões para a
preparação do batismo; Sugestões para uma celebração mais
adequada do batismo; Conclusão.
I - PARTE
SENTIDO TEOLÓGICO DO SACRAMENTO DO BATISMO A PARTIR DO
RITO
13. Na explicação do sentido teológico do
batismo, percorreremos a seqüência de ritos que compõem a
sua celebração, à semelhança das antigas catequeses
mistagógicas, com as quais se procura descortinar o
sentido dos ritos e, assim, introduzir o neobatizado na
compreensão e na vivência dos sacramentos.
1. Ritos iniciais
14. À porta da Igreja, o celebrante saúda as
pessoas presentes e estabelece com elas um diálogo. Em
seguida, o celebrante, os pais e os padrinhos traçam o
sinal da cruz sobre a fronte de cada criança.
a) Recepção
15. O acolhimento exprime o ingresso na
comunidade eclesial.
16. Os batizandos são recebidos à porta da
igreja para significar que ainda não pertencem à Igreja,
na qual entrarão pela porta do batismo.
17. Com efeito, o batismo é a porta de
entrada para a Igreja: "É necessário que, pelo batismo,
todos sejam incorporados nele (em Cristo) e na Igreja, seu
corpo" (AG 7; cf. AG 6, PO 5, AA).
18. A porta do templo, ademais, é símbolo da
entrada no Reino de Deus, no tempo e na
eternidade, através da fé (cf. At 14,26) e do amor.
19. O batismo é aquele sinal da fé sem o
qual, ordinariamente, não se pode "entrar no Reino de
Deus" (Jo 3,5). De outro lado, porém, a fé, "que opera
pela caridade" (Gl 5,6), pode manifestar-se, de certa
maneira, até fora dos limites visíveis da Igreja, em toda
boa obra em favor dos irmãos, sobretudo dos mais pobres e
pequeninos (cf. Mt 25,32-40).
b) Canto de entrada
20. O canto de entrada faz eco ao apelo do
salmista ao dizer: "Atravessai suas portas com louvor, os
seus átrios com hinos; exaltai-o, bendizei seu nome (Sl
99,4). Eu me alegrei, porque me disseram: iremos à casa do
Senhor" (Sl 121,1).
c) Saudação
21. O celebrante, como o pai de família,
saúda os presentes em nome do Pai que nos criou e nos
predestinou a sermos "conformes à imagem de seu Filho,
para que ele seja o primogênito entre muitos irmãos" (Rm
8,29).
22. Recebe-os alegremente em nome da família
dos filhos de Deus reunida no Espírito Santo, à cuja
frente foi colocado para dispensar a cada um o pão a seu
tempo — (cf. Mt 24,45).
23. A comunidade presente, ao menos na
pessoa dos pais, padrinhos, amigos e familiares, acolhe os
futuros irmãos, como Jesus, "o primogênito de muitos
irmãos" (Rm 8,29), acolhia as crianças: "Deixai as
crianças virem a mim. Não as impeçais, pois delas é o
Reino de Deus. Em verdade vos digo: aquele que não receber
o Reino de Deus como uma criança não entrará nele" (Mc
10,14-15).
d) Presença da comunidade
24. Batizam-se as crianças normalmente, com
a presença e participação da comunidade.
25. O homem, por natureza, necessita da
comunidade. Não pode viver sozinho. Basta lembrar a
família, a pequena comunidade, a sociedade civil. Uns
precisam da ajuda e do apoio dos outros.
26. "Não é bom que o homem esteja só", diz
Deus a respeito de Adão (cf. Gn 2,18). E dá-lhe uma
companheira. No Antigo Testamento, Deus fez de Israel o
seu povo escolhido e celebrou com ele uma Aliança (Ex
19,24). Constituiu-o como "nação santa" (Ex 19,6). Cristo
não veio para salvar a cada um isoladamente, mas "para
reunir os filhos de Deus dispersos" (Jo 11,52), para
que houvesse "um só rebanho e um só pastor" (Jo
10,5-6).
27. Pelo batismo, o homem se torna membro da
Igreja, Povo de Deus. Diz o Vaticano II: "Aprouve a Deus
santificar e salvar os homens, não singularmente, sem
nenhuma conexão uns com os outros, mas constituí-los num
povo, que o conhecesse na verdade e santamente o servisse"
(LG 9). Essa comunidade de salvação, esse Povo de Deus é a
Igreja. A ela Jesus confiou o Evangelho e o batismo,
quando disse: "Ide, fazei discípulos todas as gentes,
batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito
Santo" (Mt 28,19).
28. Por tudo isso, o cristão autêntico leva
vida de comunidade eclesial e participa regularmente de
uma das comunidades locais nas quais subsiste e opera a
Igreja de Cristo (cf. SC 26,27,41,42; Pastoral da
Eucaristia, cap. 1º).
e) Diálogo
29. O NOME — O diálogo sobre o nome é rico
de significação. Cada ser humano é único, irrepetível,
insubstituível em sua singularidade pessoal. Somos
pensados e amados por Deus, desde a eternidade e para toda
a eternidade nesta individualidade singular, e assim
devemos ser vistos e acolhidos pelos outros. Podemos
possuir coisas e delas dispor a nosso bel-prazer,
usando-as, subordinando-as a nossos interesses,
trocando-as. Com as pessoas, não podemos fazer o mesmo.
30. A pessoa deve ser aceita com suas
próprias idéias, com seus sentimentos e sua maneira de
ser. A pessoa não pode ser meio para atingirmos nossos
objetivos. O outro é distinto de nós, com direito a ser
quem realmente ele é, a ver reconhecida sua própria
autonomia, sem precisar renunciar à sua personalidade para
viver e conviver.
31. O relacionamento interpessoal e
comunitário, se permeado de amor autêntico, favorecerá o
desabrochar do "eu" no mútuo reconhecimento e na doação
desinteressada.
32. O nome exprime esta identidade pessoal a
ser reconhecida pelos outros, chamada a colocar-se a
serviço de todos.
33. Na comunidade eclesial, este mútuo
respeito será a base de um conhecimento verdadeiro e de um
amor autêntico, no qual o conhecimento deverá desabrochar.
A medida em que seus membros se conhecerem, sobretudo, nas
comunidades menores intraparoquiais, melhor a família de
Deus expressará sua união com Cristo, o Bom Pastor, que
conhece as suas ovelhas e por elas é conhecido (cf. Jo
10,14). Dar a vida pelas ovelhas (Jo 10,15), amando-as
como Cristo as amou (cf. Jo 15,12.17) é a conseqüência do
conhecimento amoroso e do mútuo respeito.
34. Na Sagrada Escritura, além disso, o nome
é parte essencial da pessoa (cf. 1Sm 25,25), de tal forma
que o que não tem nome não existe (Ecl 6,10), sendo a
pessoa sem nome um homem insignificante, desprezível (Jó
30,8). O nome equivale à própria pessoa (Nm 1,2.42; Ap
3,4; 11,13).
35. Por isso, ao dar uma missão a alguém,
Deus lhe muda o nome: assim com Abraão (Gn 17,5), com Jacó
(Gn 32,27ss), com Salomão (2Sm 12,25). Da mesma forma,
no Novo Testamento, Jesus muda o nome de Simão
para Pedro (Mt 16,18; cf. Mc 3,16-17) e os Apóstolos
mudam o nome de José para Barnabé (cf. At 4,36). O nome de
Jesus simboliza a sua missão: Jesus (do hebraico,
Yehoshúa) significa Javé salva (cf. Mt 1,21). O nome, em
outras palavras, vem a significar a missão que se recebe
na história da salvação.
36. No batismo, reconhece-se oficialmente o
nome da criança. Recorda muitas vezes o nome de um santo.
Aquele que nasce para a vida da graça, no seio da Igreja,
liga-se simbolicamente àquele que, depois da peregrinação
da fé, nasceu para a vida da glória, animando-o com seu
exemplo e ajudando-o com sua intercessão (cf. Prefácios
dos Santos). Daí a conveniência de se evitar nomes
estranhos e extravagantes.
37. PEDIDO DO BATISMO — São os pais que
pedem o batismo para seus filhos. A criança não tem ainda
consciência nem autonomia suficiente para tal ato, como,
aliás, para tantos outros atos de sua vida. Vive, em tudo,
na dependência dos adultos.
38. Os pais, se cristãos, não querem que
seus filhos cresçam apenas física, psicológica e
intelectualmente; querem vê-los crescidos integralmente.
Por isso, desde muito cedo, proporcionam-lhes o batismo, o
banho do novo nascimento pelo qual, de simples criatura, a
criança passa a ser filho de Deus, de simples membro da
família humana, passa a ser membro vivo da família de
Deus, a Igreja.
39. Ao ser incorporada a Cristo, repleta do
Espírito Santo, consagrada para a vida eterna, a criança
passa a possuir dentro de si um dinamismo novo,
sobrenatural, a fé, a esperança e a caridade, que, a seu
tempo, pela educação e pela prática da vida cristã, na
família e nas demais comunidades eclesiais, irá
desabrochando numa fé consciente e assumida, responsável e
progressivamente adulta.
40. Para marcar as etapas desse desenvolvimento,
renovam-se, publicamente, em determinados momentos da
vida, os compromissos batismais, especialmente na primeira
comunhão, na crisma e na vigília pascal.
f) A educação da fé pelos pais
41. A conseqüência, para os pais que pedem o
batismo para seus filhos, é o compromisso, já assumido na
celebração do casamento, de educá-los na fé, dentro da
comunidade eclesial.
42. A ordem de batizar em nome do Pai, do
Filho e do Espírito Santo não pode ser desvinculada da
missão do anúncio do Evangelho (cf. Mt 16,15), da
conversão para o seguimento de Jesus, que caracteriza os
verdadeiros discípulos (cf. Mt 28,19) e de uma orgânica
educação da fé (cf. Mt 28,20).
g) A colaboração dos padrinhos
43. No cumprimento deste compromisso de
educar seus filhos na fé, os pais são ajudados pelos
padrinhos. Depois dos pais, padrinho e madrinha
representam a Igreja, nossa Mãe, "que, pela pregação e
pelo batismo, gera, para uma vida nova e imortal, os
filhos concebidos do Espírito Santo e nascidos de
Deus" (LG 64). Representam a Comunidade que, ao
enriquecer-se com a entrada de um novo membro, vê sua
responsabilidade também acrescida.
h) O sinal da cruz
44. Concluem-se os ritos iniciais, marcando
a fronte de cada criança com o sinal da cruz. Que
significa isso?
45. Marcam-se livros, roupas, animais com o
nome de seu dono ou outro sinal. Muitas pessoas andam com
distintivo ou emblema do seu clube, da sua escola, da sua
associação esportiva. É um sinal de pertença.
46. Na noite da Páscoa em que fugiram do
Egito, os israelitas marcaram as portas de suas casas com
o sangue do cordeiro pascal. Assim o anjo justiceiro, que
passaria, podia reconhecer as casas dos israelitas e
poupar os seus primogênitos (cf. Ex 12).
47. O profeta Ezequiel viu como Deus mandou
marcar, com seu sinal, a fronte das pessoas oprimidas.
Quando passaram os emissários para matar os malfeitores,
sabiam a quem deviam poupar (cf. Ex 9,4-7). Da mesma
maneira, serão poupados, no dia da vinda do Senhor, todos
os que forem assinalados com o sinal do Deus vivo (cf. Ap
7,2-4 e 9,4).
48. O sinal do cristão é a cruz de Cristo.
Quem é marcado com a cruz pertence a Cristo e à sua
Igreja. Não pode ser escravo de outros senhores ou adorar
outros deuses.
2. Liturgia da Palavra
49. Terminados os ritos iniciais, talvez
celebrados à porta do templo, no corpo da Igreja
proclama-se a palavra de Deus, elevam-se nossas preces a
Cristo e aos santos, e, finalmente, unge-se o peito de
cada criança com o óleo dos catecúmenos.
a) Leituras bíblicas e homilia
50. O próprio Deus dirige-nos a
palavra (cf. 1Ts 2,13; Rm 10,14; 2Cor 2,17; Rm 15,18-19;
2Cor 13,3; Lc 10,16) através das leituras bíblicas, do
Antigo e do Novo Testamento.
51. Enquanto as leituras nos recordam que
Deus interveio realmente em nossa história, a homilia
testemunha, aqui e agora, a intervenção do Deus vivo em
Jesus Cristo e no dom do Espírito.
52. Em ambas as formas, a palavra de Deus é
proclamada e acolhida na fé. A realidade do batismo só é
conhecida através da fé.
53. Se todos os sacramentos nutrem,
fortalecem e exprimem a fé (cf. SC 59), com muito
maior razão o batismo, que é, por excelência,
o "sinal da fé" (cf. Iniciação Cristã, Observações
Preliminares Gerais, nº 3).
54. A liturgia da palavra e a liturgia
sacramental formam um todo. Na celebração batismal, a
liturgia da palavra, além de seu valor próprio, prepara a
liturgia sacramental, particularmente a profissão de fé,
pela qual o homem responde à proposta de Deus. Ora, a fé
nasce e se alimenta da palavra de Deus, assim como a
própria comunidade eclesial onde será recebido como membro
vivo o batizando.
55. Além disso, os pais, ao pedirem o
batismo para seus filhos menores, assumem o compromisso de
educá-los na fé. Para tanto, é preciso que conheçam e
vivam melhor o conteúdo da fé cristã, expresso verbalmente
na Bíblia e na pregação da Igreja.
b) Oração dos fiéis
56. Os fiéis invocam a misericórdia de Deus,
conscientes de sua incapacidade e da absoluta necessidade
da graça de Deus para se obter e se viver com coerência e
perseverança a vida nova do batismo: "Sem mim, nada podeis
fazer".
c) Invocação dos santos
57. A invocação de Deus é seguida pela
invocação dos santos, que, antes de nós e muito melhor do
que nós, viveram a vida batismal neste mundo.
58. Para nós são estímulos e exemplos; junto
a Deus são nossos intercessores. Próximos de nós pela
humanidade, estão próximos a Deus pela santidade. Neles a
vida batismal floresceu até à plenitude.
59. Neste instante da liturgia batismal, a
Igreja peregrina na terra se une à Igreja triunfante no
céu (cf. Ap 5,8; 8,3) para pedir a graça de Deus em favor
daqueles que ainda se encontram no limiar da Igreja. É a
comunhão dos santos.
60. Após a invocação de Maria, Mãe do Filho
de Deus — que se torna nossa Mãe no batismo — segue-se a
invocação de são João Batista, são José, são Pedro e são
Paulo e outros que podem ser acrescentados — como os
padroeiros das crianças, da Igreja ou do lugar em que se
celebra o batismo — terminando-se com a invocação de todos
os santos.
d) Oração
61. Nas orações com que o celebrante conclui
a liturgia da palavra, recorda-se a missão de Cristo,
libertador do pecado (1Tm 1,15) e de suas conseqüências
(cf. Lc 4,18 ss; 7,18 ss), e portadora de salvação.
62. Jesus Cristo, Filho de Deus, pela sua
encarnação, vida, morte e ressurreição, transforma
radicalmente a vida humana e o próprio universo, abrindo
definitivamente toda a realidade e a história humana para
o desígnio de Deus, que quer a plenitude da vida humana
(cf. Jo 10,10), numa comunhão filial para com Deus,
fraternal para com os outros, senhorial para com o mundo.
63. Deus "quer que todos os homens se salvem
e cheguem ao conhecimento da verdade. Porque há um só
Deus, e há um só mediador entre Deus e os homens, que é
Jesus Cristo homem, o qual se deu a si mesmo para a
redenção de todos" (1Tm 2,4-5).
64. Embora a salvação possa ser dada sem a
mediação visível da Igreja e o conhecimento expresso de
Cristo e de Deus (cf. LG 16; GS 22), a fé explícita e o
conseqüente batismo são o meio ordinário de recebê-la. É
dentro destes limites que devemos entender as palavras de
Jesus: Aquele que crer e for batizado será salvo; o que
não crer será condenado (Mc 16,16); "Em verdade te digo:
quem não nasce do alto não pode ver o Reino de Deus (...)
quem não nasce da água e do Espírito não pode entrar no
Reino de Deus" (Jo 3,3.5).
65. O Cristo liberta do "espírito do
mal" (cf. Ef 6,16; 1Jo 3,8; Mt 6,13), do "poder das
trevas" (cf. Cl 1,13; Jo 8,12), do pecado (cf. Mt
9,2.6.13; Lc 5,20; 7,48 etc.), introduz no "reino da luz"
(cf. Cl 1,12-13; Jo 8,12; 12, 35-36.46; Ef 5,8; 1Ts 5,5;
1Pd 2,9), dá ao cristão força e proteção para fazer
frente às provações e "resistir com coragem às
solicitações do mal" (cf. 1Cor 10,13; 2Pd 2,9; Ap 3,10).
e) Unção pré-batismal
66. A coragem (cf. At 23,11; Ef 6,20), a
força (cf. Ex 15,2; Sl 141,7; Cl 1,11; 1Cor 10,13; Ef
6,10; 2Tm 4,17; Ap 3,8), a resistência e a proteção (Sl
58,11), impetradas na oração, são significadas pelo gesto
sensível da unção pré-batismal: "O Cristo Salvador vos dê
sua força. Que ela penetre em vossas vidas como este óleo
em vosso peito".
67. Os antigos lutadores se ungiam com óleo
em todo o corpo para fortificar os músculos e para
dificultar que os adversários os agarrassem.
Semelhantemente, preparando-se para as lutas que deverá
travar para ser fiel à vocação cristã e à missão que
receberá no batismo, o batizando é ungido no peito.
68. "Tendo recebido a couraça da justiça
resistais aos artifícios do diabo" (Ef 6,11.14; Is 11,5;
59,17; 1Ts 5,8). Revestidos da armadura de Deus (cf. Ef
6,11), os cristãos estão preparados para resistir à força
inimiga e vencê-la. De seus lábios brota um hino de
confiança: "tudo posso naquele que me conforta, o Cristo"
(Fl 4,13).
3. Liturgia sacramental
69. A liturgia sacramental compreende a
oração sobre a água, as promessas do batismo, o batismo, a
unção com o crisma, a veste branca, a entrega da vela
acesa e o "efeta".
a) Oração sobre a água
70. Mesmo "durante o tempo pascal, nas
igrejas em que a água foi consagrada na Vigília pascal,
para que não falte ao batismo o louvor e a súplica,
faça-se a oração sobre a água..." (Rito para o Batismo de
Crianças, nº 55).
71. Junto à fonte batismal, o celebrante
bendiz a Deus, recordando o admirável plano segundo o qual
Deus quis santificar o homem, pela água e pelo Espírito.
72. Diante de nossos olhos passam as
principais figuras do batismo presentes na história da
salvação: a criação (Gn 1,2.6-10; 1,21-22), o dilúvio
(Gn 7,9), a travessia do Mar Vermelho (Ex 14,15-22),
o batismo de Jesus nas águas do Jordão (Mt
3,13-17), a água que correu do lado aberto de Cristo na
Cruz (Jo 19,34).
73. Na ordem de Cristo, após a ressurreição
— "Ide, fazei discípulos, todos os povos, e batizai-os em
nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo "(Mt 28,19) ,
passa-se da figura à realidade, da prefiguração à
realização.
74. O simbolismo da água é de fundamental
importância para se compreender a significação do batismo.
Mergulhar e sair da água significa morrer e ressurgir.
75. "Batizar", com efeito, significa imergir
ou submergir na água.
76. O Apóstolo Paulo vê no batismo com
água um sentido fundamental. Mergulhar nas
águas batismais e sair delas exprime o morrer para o
pecado e o ressurgir com Cristo. Morrer para o pecado,
ressurgir para a vida nova em Cristo. "Com ele fomos
sepultados pelo batismo para participarmos da morte, para
que assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória
do Pai, assim também nós vivamos uma vida nova. Pois se
fomos unidos a ele pela semelhança da morte, também o
seremos pela semelhança da ressurreição" (Rm 6,4-5).
77. Diz o Concílio Vaticano II: "Pelo
sacramento do batismo, o homem é verdadeiramente
incorporado a Cristo crucificado e glorificado... segundo
estas palavras do Apóstolo: Com ele fostes sepultados no
batismo e nele fostes co-ressuscitados" (Cl 2,12; cf. 1Pd
3,21-22) (UR 22).
78. Por sua Páscoa, ou seja, sua passagem da
morte à vida, ele nos salvou. Ensina ainda o Vaticano II:
"Esta obra da redenção humana... completou-a Cristo
Senhor, principalmente pelo mistério pascal de sua sagrada
paixão, ressurreição dos mortos e gloriosa ascensão" (SC
5). "Morrendo, destruiu a morte; e ressurgindo, deu-nos a
vida" (Missal Romano, Prefácio da Páscoa I).
79. Pelo batismo, os homens tomam parte
nesta morte e ressurreição de Cristo: "Assim também vós,
considerai-vos mortos ao pecado, porém, vivos para Deus em
Nosso Senhor Jesus Cristo" (Rm 6,11). "O batismo recorda e
realiza o mistério pascal, uma vez que por ele os homens
passam da morte do pecado para a vida" (Rito para o
Batismo de Crianças, A Iniciação Cristã, nº 6). É por isso
que, ao sermos batizados, renunciamos ao pecado e a todo
mal e fazemos nossa profissão de fé, dizendo firmemente
que Deus nos salva do pecado e da morte por seu Filho
Jesus.
80. Observadas as devidas precauções, o rito
de mergulhar a criança na água batismal e retirá-la
exprime melhor esta idéia do que o derramar a água na
fronte.
A água dá vida
81. A água é necessária para a vida. Sem
água, morre a plantação, morrem os animais e as pessoas.
Na seca, a terra se torna deserta; quando volta a chover,
tudo renasce.
82. Deus criou para o homem um lugar de
delícias, donde saía um rio, dividido em quatro braços
para regar o paraíso (Gn 2,10-14). Quando os profetas
prometiam a salvação, comparavam esta salvação com chuvas,
orvalhos, fontes e rios, que mudariam a terra seca em novo
paraíso (cf. Is 35,1.6-7). A água é também sinal do
Espírito Santo que dá a vida eterna (cf. Jo 7,37-39).
83. Assim, pela água do batismo, o homem
recebe a vida divina, renasce "da águ